Saí do ventre materno às cinco horas da manhã de um domingo. Foi no dia 21 de março de 1943 e eu era o primeiro menino da família, depois de uma sequência de quatro meninas. O mundo estava em guerra. À rua Leonardo Malcher, então situada nos confins desta sorridente de Manaus, não chegava o trovejar dos canhões nem sobre elas caíam bombas nazistas. Também não era preciso. A rua era esburacada por natureza, seguindo seu curso modorrento a partir das margens do igarapé de São Raimundo. Logo na beira, o flutuante da dona Iracema, de onde era possível jogar a linha na água, na esperança de fisgar algum mandi. Ou de onde era possível pular e mergulhar num leito então limpo e aonde a ignorância ainda não havia iniciado o trabalho de jogar entulho. O Prosamim também ainda não tinha sido pensado pela genialidade que o levou ao aterramento de todos os cursos d’água da capital.

A energia elétrica era coisa rara no local. Acho que meus tenros olhos viram primeiro a chama de uma vela ou o clarão de uma lamparina a querosene, que, diga-se de passagem, foram meus companheiros frequentes nos anos de estudo. Longos anos. Aliás, sempre tive a impressão de que se as crianças tivessem a exata dimensão da carga de tempo e de tralho que as espera na escola, o número de suicídios infantis seria alarmante. Mas era assim o padrão e só venho a me lembrar do curso primário no Grupo Escolar Princesa Isabel, anexo ao Instituto de Educação. A merenda era um pão com banana, no intervalo entre uma e outra preleção de dona Olga Rocha. Que figura gentil era a minha professora! A voz rouca, uma ligeira tendência à obesidade, tratava-nos com um carinho maternal. Isso não quer dizer que a palmatória não se fizesse presente nas sabatinas. Ainda não havia essa frescura de “bullying” e quem não estudava seria castigado e reprovado.

Para o curso ginasial, só fiz subir as escadas do prédio. Foram quatro anos no IEA, onde professores como João Chrisóstomo de Oliveira, Miguel Duarte e Armando Menezes faziam com que a gente encontrasse prazer em cumprir as tarefas. Até canto orfeônico eu estudei, conquanto, por mera deficiência minha, jamais tenha conseguido distinguir uma fusa de uma colcheia. Sabia, é certo, a colocação correta das notas musicais na pauta. Nada além disso; o que levou dona Vivizinha a ironizar “o senhor é um grande músico”. Senhor! Eu tinha  onze anos de idade.

O curso clássico foi no Colégio Estadual do Amazonas e não começou bem. Logo no primeiro semestre de 1958, meu pai morreu. Que dor mais profunda, que angústia insuportável! Eu amava desmesuradamente aquela figura franzina e morena, que sempre foi para mim um ícone. Minha mãe foi uma guerreira. Encarou a adversidade e levou o barco adiante. Nunca mais a vi usar outras cores que não fossem preto e branco. Ela nunca ouviu falar da ministra Damares. E no peito transportou sempre um camafeu com a figura do velho, símbolo de uma viuvez jamais quebrada, até os seus noventa e dois anos, quando também partiu.

Fui para a faculdade e, como diria o professor Sebastião Norões, “formei-me em direito, como todo mundo”. Antes, porém, vieram o Partido Comunista e a ditadura. Naquele aprendi quase tudo sobre fraternidade e solidariedade, encarando o mundo com a visão de quem acredita que a Humanidade pode construir seu próprio futuro e conquistar o ideal de dar a cada um de acordo com suas necessidades. 1964 foi duro, como duríssimas foram as duas décadas subsequentes. Faltava oxigênio cívico e a opressão era uma constante. O regime militar fez poucas e boas (poucas?), transformando os porões da ditadura num abatedouro de brasileiros, cujo único crime era o pensamento divergente da ordem instituída. Eu mesmo, na minha insignificância provinciana, ouvi de um major do exército a macabra afirma de que ele me mandaria matar se confirmasse que eu era comunista. Não sei que fim levou essa figura e hoje posso dela me lembrar com um sorriso de tristeza e pena nos lábios.

Tive a honra e o orgulho de ser presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, no Amazonas. Até pela política eu andei. É verdade. Exerci um mandato de deputado estadual e um de vice-prefeito de Manaus. E fui também Secretário de Estado. Não me arrependo, mas não o faria de novo. Digo apenas que de todos os lugares por onde passei saí com as mãos limpas. Não fiz mais do que minha obrigação.

Pois é. E assim já se passaram setenta e seis anos. Acho sinceramente que poderiam ter sido mais produtivos. Não em termos de riqueza, é claro, porque essa eu sempre soube que estava acima de qualquer possibilidade para mim. Mas digo como ser humano mesmo, porque reconheço que foi muito pequena minha contribuição para diminuir as desigualdades. De qualquer forma, acredito que não foram totalmente inúteis. Quando nada, pelo seguinte: Machado de Assis faz seu personagem se gabar de que não teve filhos e, assim, “não transmitiu a ninguém o legado da nossa miséria”. Eu tive quatro. E deles tenho todo o orgulho do mundo. Nisso difiro do Bruxo do Cosme Velho. Quem dera que fosse só nisso!.