Minha mãe, dona Lucíola, tinha o costume de dizer que “atrás do pobre anda um bicho coxé”. Penso que, nunca tendo vivido na abastança, queria ela significar, com a metáfora, aquilo que os economistas podem entender e explicar melhor: é difícil enfrentar a pobreza. Os mecanismos de sobrevivência são complicados e no mais das vezes tendem a confirmar a sabedoria popular ao concluir, para ficarmos no terreno das comparações, que “toda água corre para o mar”. Apesar de os antigos romanos afirmarem que “pecunia pecunia non parit” (dinheiro não pare dinheiro”), o dia-a-dia mostra que os ricos só fazem aumentar suas fortunas, enquanto os do outro lado vão acumulando frustrações, tristezas e angústias mal resolvidas.

O fosso a separar as duas camadas é enorme. O ser humano que recebe um salário mínimo no fim do mês vive em planeta distinto daquele em que se refestelam os milionários. Sem esquecer que existem muitos (milhões, com certeza) que não têm como auferir nem a mísera quantia estabelecida na lei como indispensável. Quando vejo a imprensa publicar que determinado percentual da população vive “abaixo da linha da pobreza”, confesso que fica difícil de compreender e aceitar. Como isso seria possível? O que é que pode ser mais acachapante do que a pobreza? A miséria? A fome? Ou tudo isso junto? Também não logro entender como é que se podem criar categorias estatísticas para medir a intensidade maior ou menor das desgraças humanas.

De uma coisa tenho certeza: essa diferença abissal entre riqueza e pobreza pouca ou nenhuma influência tem no que diz respeito ao caráter dos integrantes de ambas. Há pobres honestos e há ricos ladrões. Assim como há sábios pobres e ricos estúpidos. É possível inverter os dados da propositura? Claro que sim. Mas isso apenas vem em abono da tese de que, apesar da indiscutível diferença de oportunidades, o comportamento do animal homem não está vinculado apenas e nem proporcionalmente à posse ou inexistência de recursos materiais.

Não prego, longe de mim, nenhum tipo de conformismo. Não me parece que tenhamos de aceitar pura e simplesmente as coisas como elas se apresentam, assim como se tivessem sido traçadas em superiores planos estelares. Nada disso. Não pensasse eu assim e não teria toda uma vida dedicada à luta contra as desigualdades, seja em que campo for. Contribuição pequena a minha, é certo, nesse embate, mas feita com a mais pura das sinceridades e com toda a dedicação que permitiram minhas parcas forças.

O hipopótamo que guiou Brás Cubas em seu delírio, afirmou-lhe com uma rudeza causticante: “Vives. Não quero outro flagelo”. Mesmo descontando algo do elevado e reconhecido grau de pessimismo de Machado de Assis, dá para entender que viver a vida não foi, nem nunca será, um passeio por um mar de rosas. Fio até que muito ao contrário, pois não tenho como viável que alguém (rico ou pobre) possa passar por este planeta sem conhecer um momento que seja de agrura.

Para os que nascem em berço de ouro, óbvio que as facilidades se apresentam como saindo de uma cornucópia. É sempre mais fácil enfrentar a adversidade quando não se está preocupado em ter o que comer. Mas os que nascem em berço de palha (ou mesmo os “sem berço”), estes vão ter que padecer muito. Uma sopa rala não se pode comparar com um manjar. Os que provam daquela estão em nítida desvantagem em relação aos que saboreiam o segundo.

E ainda há que encarar coisas cuja natureza nem a mais requintada alquimia consegue explicar. Ora, alquimia! Nem a mais sofisticada mente cibernética pode conseguir explicação, por exemplo, para o racismo. O que é que pode levar alguém a achar que é superior ou inferior a outro tendo como parâmetro somente a cor da pele? Ser negro, branco, pardo, amarelo ou vermelho que importância pode ter para estabelecer a classificação de alguém no pódio da competição humana?

Como refere o título que encima estas mal traçadas, estou apenas divagando. Coisas que acontecem com quem tem que escrever. À falta de um tema concreto, nada mais útil do que recorrer ao etéreo mundo das divagações. Navegando por ele, não há necessidade de bússola porque não se precisa encontrar o norte. Deixe-se flutuar livremente. A leve brisa dos pensamentos há de conduzi-lo por paragens “nunca dantes navegadas” e o navegante terá sempre o sabor da ilusão de ser um descobridor. O que não passa de ilusão mesmo. Afinal de contas, “não há nada de novo sob o sol”. Agora, errei feio: a novidade é que Bolsonaro e seu chanceler descobriram que o nazismo era de esquerda. E eu vou pegar a certidão de que sou o coelhinho da páscoa.