Semana passada andei divagando por aqui sobre miséria e fome, no sentido de tentar compreender a, até hoje, insuperável diferença entre os muito ricos e os muito pobres. Tivesse eu tido um pouco mais de paciência e teria poupado os meus escassos leitores do incômodo. É que anteontem fui cientificado da epifania a que deu causa a Ministra da Agricultura, doutora Teresa Cristina. Sua Excelência, em debate na Câmara dos Deputados, assegurou que neste nosso país fome é conversa fiada. Ninguém aqui padece desse mal, estando os brasileiros, mesmo os do mais baixo estrato social, livres da ameaça do flagelo. E por quê? – quis eu saber com um misto de incredulidade, assombro e alegria. Ó, vil ignorante, admoestou-me a voz da razão, então não sabes que as mangas brasileiras estão aí mesmo, aptas a alimentar quantas bocas a elas se apresentem e a qualquer hora do dia?

Não, eu não sabia, confesso. Claro que da existência de mangas neste país tropical, mesmo a minha exacerbada ignorância tinha conhecimento. O que escapava completamente à minha percepção era a obviedade de que, em havendo mangas, falar de fome adquire conotações heréticas, ofensivas mesmo ao bom senso. Há mangas para todos os gostos e exigências. No quintal da casa paterna, lembro-me da frondosa árvore que, sazonalmente, inundava o chão com impressionante quantidade de manga-espada. A manga comum, essa dá mais do que chuchu na serra e é encontradiça em qualquer beira de estrada e mesmo no sufocante ambiente urbano. E a manguita, minha gente? Pequena, doce qual mel, pode perfeitamente deixar sua condição de sobremesa e se alçar a prato principal; qualidade para isso não lhe falta. A manga-rosa, então, é um exagero. Com suas avantajadas proporções pode ser responsável pela alimentação satisfatória de até três pessoas. Ia eu omitindo a manga verde com sal; não por preconceito, é claro, mas porque, nessas condições, o alimento mágico está reservado à dieta de alguns pinguços de carteirinha, que o não podem dispensar sob nenhuma circunstância quando das suas libações em homenagem a Baco.

A FAO (Food Agricultural Organization) é o braço das Nações Unidas incumbido de tratar da questão alimentar no mundo. Estou curioso de saber como vai ela reagir a esse novo milagre tupiniquim. Imagino que as providências se dirijam no sentido de obrigar o Brasil a compartilhar a maravilha de que dispõe com países menos favorecidos. Seria muito egoísmo de nossa parte sovinar de outros povos a riqueza de que dispomos. Como frisou a sábia Teresa Cristina, a mangueira não é um produto que exija cuidados maiores com a agricultura, de tal sorte que seu custo é zero.

Como é possível que os economistas da área nunca tenham detectado, nem de longe, tão simples e simpática solução? É imperdoável o descuido e as academias e universidades estão a dever explicações cabais sobre tamanha omissão. Não fora o brilhantismo da ministra e continuaríamos a traçar planos mirabolantes para o enfrentamento do assunto. Todos eles de improvável concretização, tantas e tamanhas são as variáveis ocorrentes.

Lula ensaiou implantar e implementar um programa a que chamou Fome Zero. Não teve êxito. A proposta não saiu do papel e dela nunca mais se ouviu falar. Bolsonaro foi mais feliz: encontrou na genialidade da Ministra da Agricultura a solução mais simples para o problema, numa equação que remete para a conhecida história do ovo de Colombo. Fome? Ora que fome? Temos mangas a mancheias e nesta terra nenhum brasileiro vai mais dormir com o estômago vazio. No café-da-manhã, duas fatias de manga comum são mais do que o suficiente para deixar o ser humano perfeitamente apto a enfrentar as lides matinais, até a hora do almoço. Nada impede, é claro, que, a título de merenda, seja ingerido um copo de suco de manga. O almoço estará a exigir mais conteúdo. Fique à vontade. Dirija sua opção para o tipo da fruta que lhe pareça mais adequado e não faça cerimônia. É de graça e você não vai ter que usar cartão de crédito para pagar a refeição. Repita a dose na merenda vespertina e no jantar, sem esquecer nunca de verificar seu estado físico. Afinal, quem é que não está lembrado de que nossas avós proibiam comer manga com febre?

No final do século XIX, um certo conde de Afonso Celso escreveu um livreto intitulado “Por que me ufano do meu país”. Não fosse pela ingenuidade dos conceitos, seria de um ridículo desprezível. Como o nome indica, tratava-se de uma série de louvaminhas ao Brasil, do tipo “somos o melhor país do mundo porque aqui não existem terremotos”. Acho que a nobre figura, se tivesse vindo a conhecer o milagre da manga, haveria de parafrasear o poeta e lançaria esta preciosidade: “Minha terra tem mangueiras/Aonde o povo vai jantar/As mangas que aqui vicejam/Vão a todos engordar”.                 É isso aí. Dilma quis estocar ventos. Damares reduziu a duas as cores do disco de Newton e viu o Cristo apanhando goiaba. Teresa Cristina pariu a solução para a fome no universo. A continuar assim, vamos reinventar a roda e estaremos fritos com pouca banha.