A cobra e a árvore - Fato Amazônico

A cobra e a árvore

Felix Valois

Não se sabe quem inventou a mentira. Também nunca ouvi falar de quem tenha sido o inventor da religião.

Apesar da identidade de causas, os religiosos foram mais diligentes e conseguiram dividir (para multiplicar) o seu gênero em várias espécies, enquanto os mentirosos permaneceram firmes na unidade.

Não há, por isso, templos, igrejas ou mesquitas para o culto da mentira. Se houvesse – e aí haveria também toda a hierarquia decorrente – seu Bira teria sido cardeal. Papa não digo, que lhe faltava aquela noção da inutilidade absoluta, tão a gosto, por exemplo, da família real inglesa.

Seu Bira mentia por necessidade orgânica. Era como respirar, comer e reproduzir. Seu Bira era mentiroso.

Morando na capital há muitos anos, no mesmo bairro onde habitava o Sr. Travassos, seu Bira não esquecia o interior em que nascera e se criara. E suas histórias começavam com a marca registrada: “Lá no interior onde eu nasci…”. Depois desse era uma vez o ouvinte já estava certo de que o cardeal ia entoar a homilia mais deslavadamente inverídica, a um tempo ingênua e grotesca.

Seu Bira já tinha sido comido por onça.

Deu-se que, caçando um desses felinos, Seu Bira o encurralou no interior de uma caverna, quando, às suas costas, um esturro monumental se fez ouvir. Era o parceiro da onça acuada que, em socorro da companheira, vedava a única saída do lugar.

O espectador, no auge do suspense, não conteve a pergunta:

— E aí, o que aconteceu?

Seu Bira respondeu com outra pergunta, na maior naturalidade:

— E não me comeram?

Por coincidência, essa mesma história eu ouvi, anos depois, contada por meu amigo José Trindade Martins, ambientada em sua terra natal, a Paraíba, numa demonstração científica de que a mentira tem conotações universais. Algo mais ou menos como a ignorância do Lula sobre o mensalão.

Voltemos. Sexta-feira à noite, era infalível o jogo de dominó na calçada da casa do seu Américo, português que preferiu usar o barro para fins mais nobres do que modelar a humanidade. Do seu sopro saiu dinheiro. Era o rico das redondezas.

Os jogadores eram uma fauna variada, todos com um ponto em comum: queriam ser parceiros do anfitrião, o que poderia compensar a pouca habilidade do lusitano no manejo das pedras e ainda render um ou outro favor das burras sempre abarrotadas, mas muito bem trancadas.

Seu Bira, naquela noite, não lograra ainda o privilégio e teve que se contentar em jogar com seu Raimundo, um taberneiro que vendia fiado e, com as poucas latas de conservas que conseguia manter nas prateleiras, ia repartindo a miséria com seus vizinhos, a maioria sempre esperando o eternamente atrasado salário de funcionário público.

— Quinze, cantou o seu Bira.

— Setenta e dominó de quarenta e cinco, berrou seu Elias, jogando quina e branco e batendo com a carroça de quina, satisfeito por poder apertar a mão do parceiro rico, em comemoração à vitória.

— Grande jogada, comentou seu Bira que, apesar da humilhante derrota, não podia desfeitear o mecenas. Só não foi maior do que uma cobra que eu vi quando era criança.

— Não me diga, seu Bira, cutucou seu Raimundo, gozador inveterado.

— Pois é, seu Raimundo, lá no interior onde eu nasci passou uma cobra tão grande, mas tão grande que o rastro dela parecia o leito de um rio seco.

Com a maior seriedade do planeta, seu Raimundo contra-atacou:

— Isso não é nada, seu Bira, lá no interior onde eu nasci tinha uma árvore tão grande, mas tão grande que os lenhadores que foram derrubá-la não conseguiam um ouvir o barulho do machado do outro, batendo em lados contrários do monstro.

Seu Bira, com um misto de admiração e inveja por ter encontrado concorrente à altura, exigiu um esclarecimento que já antecipava a preocupação ecológica.

— E por que foram derrubar vegetal tão viçoso?

— Pra matar sua cobra, seu Bira, foi a resposta fulminante.

O dominó terminou mais cedo.