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Deu aqui no Diário que Manaus é a capital brasileira da obesidade. Parece que há baleias e paquidermes passeando suas carnes flácidas e sacolejantes pelo Parque dos Bilhares ou pela avenida Eduardo Ribeiro. Os shoppings estão encontrando dificuldades em manter funcionando suas escadas rolantes, em razão das toneladas que se põem nos degraus, na tentativa de chegar aos andares superiores ou, como é natural, de voltar ao nível da rua. Já dizem por aí que, fora da capital, é pergunta corrente: “O que faz aquela bola de banha se arrastando pela rua?” E a resposta: “É um manauara que fugiu do spa e busca uma forma de saciar seu incontrolável apetite”.

Quem diria! Nunca me foi dado imaginar que jaraqui e farinha do Uarini tivessem a mesma potencialidade de uma dessas “fastfood” que se consomem à larga pelos quatro cantos da cidade, assim como se fossem o mais delicioso dos petiscos. Hambúrger com bacon há de ser mistura muito menos danosa que um piracuí de bodó, degustado com tambaqui no tucupi. Parece que eu fui salvo dessa onda gordural porque, há mais de vinte anos, um médico em Brasília, o doutor Aires, me recomendou expressamente que reduzisse ao mínimo o consumo de peixes, ao fito de evitar a elevação dos níveis de ácido úrico. Livrei-me da insuportável gota e, pelo visto, também poupei minha família de, quando eu passar desta para o nada, ter que acionar o corpo de bombeiros para transportar o defunto. É um consolo besta, já que, afinal de contas, gordo ou magro, o resultado da prova dos nove é sempre o mesmo.

Mas o que dizer dos meus conterrâneos que não tiveram a mesma sorte? Será que eles terão de ser privados, por exemplo, de saborear um pirarucu de casaca, com medo das desastrosas consequências? Acho que não. É perfeitamente dispensável qualquer terrorismo quanto ao assunto. Até porque também está na moda uma tal de cirurgia bariátrica, por via da qual a medicina consegue disciplinar o obeso na marra, impedindo-o de dar passagem livre para a sua glutonaria. Também pudera; pelo que me disseram, a tal operação consiste em reduzir drasticamente o aparelho digestivo da vítima, que sai do sacrifício com apenas uma vantagem: comendo menos, expele seus dejetos igualmente em menor quantidade, o que se traduz em relevante contribuição para a higiene e para a pureza do ar.

Por falar nisso, dia desses passei por frente de uma clínica médica e vi, num imenso painel, a propaganda de outro método para combater a obesidade. Se a memória não me falha e não estou em equívoco, trata-se de uma geringonça que recebe o título de “balão gastrointestinal”. Não tenho a mínima ideia de como deve funcionar essa maravilha da ciência de Hipócrates, mas, numa dessas conversas idiotas de internet, disseram que o cirurgião abre a barriga do gordo (ou gorda, para não me acusarem de discriminação) e nela coloca um balão, cujo objetivo é impedir que boa parcela dos alimentos ingeridos entre no processo de metabolismo. É muito provável (quase certo, aliás) que essa explicação seja uma heresia impublicável. Perdoem-me por isso, senhores doutores médicos. Dá-se que, diante do clarim de alerta que soou nesta mui augusta e soberana cidade, tenho como meu dever contribuir de todas as formas possíveis para que não se alastre uma epidemia de obesidade (outra heresia?).

Lembro-me de um comercial radiofônico dos longínquos tempos da minha infância. Uma voz de criança, ao som de música de duvidosa qualidade, cantava assim: “Terezinha era magrinha, tomou Toddy todo dia, blim-blão, blim-blão, de repente engordou”. Cruz credo. Hoje soaria como ameaça. E eu que vejo diariamente minhas netas, a Heleninha e a Catarina, disputarem avidamente uma caixa de toddynho, já estou com receio de que as duas princesinhas tenham suas belezas comprometidas pelo novo mal. Não vai acontecer. Elas estão acima dessas tolices sazonais.

Não sei se o Ministério da Saúde pretende fazer campanha contra a obesidade manauara. Talvez se ele se empenhasse com o mesmo afinco com que enche o saco dos fumantes, tivesse algum êxito. Uma vacina mesmo, se é que isso é possível. Porque já me disseram que outro Ministério, o do Turismo, está preparando uma ofensiva a ser divulgada entre os magricelas do mundo inteiro, conclamando-os a visitar Manaus e ganhar um pouco mais de peso.

Eu, por outro lado, conclamo: Obesos de toda Manaus, uni-vos. Obesos unidos jamais serão vencidos.


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