BELLE ÉPOQUE E ZAPZAP - Fato Amazônico

BELLE ÉPOQUE E ZAPZAP

Com o sistema de ensino que adotamos, em que as reprovações são proibidas, não me causou nenhuma surpresa ver a ridícula posição em que ficaram os estudantes brasileiros no ranking internacional. É difícil encontrar quem estude a sério em nosso país. É lamentável, mas é verdade. E não me venham dizer as eternas gralhas que “isso é Brasil”, expressão com que sistematicamente manifestam essa autodepreciação sórdida, entranhada no subconsciente nacional e fruto de um conformismo de colonizados sem vigor e sem patriotismo. O Brasil, como Nação, nada tem a ver com isso. Seus governos, há muito tempo, têm, de tal forma que dar novos rumos para a educação é simples questão opcional, a depender de verdadeiras políticas de Estado e não apenas governamentais.

O ensino é uma pândega. Professores ganham mal e, numa interação perversa, o círculo vicioso se estabelece, com alguém fingindo que ensina e outros tanto encenando um aprendizado que estão longe de realizar efetivamente. Vai daí que o Exame Nacional de Ensino Médio, o famoso ENEM, não encontra, nem pode encontrar, concorrência nos meios humorísticos, tamanho é o volume de sandices que se vê nas respostas a perguntas elementares.

Bem por isso, ri a bandeiras despregadas, mas sem nenhuma estranheza, quando a professora Etelvina Garcia, bastião da cultura amazonense, me contou o episódio que passo a relatar, com alguns aformoseamentos de linguagem e adaptações dramáticas e jornalísticas. Toca o telefone e ela atende. Do outro lado da linha, uma voz feminina, pela aparência muito jovem, assim se expressa: “Professora, a senhora é minha última esperança. Se a senhora não me ajudar, virão a reprovação e o caos”. “Calma, minha filha, exponha que problema tão grave bate à sua porta e veremos se existe alguma possibilidade de evitar o apocalipse”, foi a resposta tranquilizadora da mestra, acostumada ao trato com a juventude.

“É o seguinte, professora: tenho que apresentar um trabalho sobre o tempo em que Manaus se chamava “belle époque” e olhe que já procurei em tudo quanto foi livro, mas não consigo encontrar uma linha que seja sobre momento tão importante da vida da nossa cidade”.

A lhaneza superou o estarrecimento e Etelvina, sem perder o “fair play”, assim, merecida e sabiamente, se pronunciou: “Acho que vamos ter de enfrentar o Armagedom, minha jovem e doce amiga. Por mais que eu force a memória, não consigo me lembrar de algo a respeito do tema que lhe foi posto como objeto de trabalho. Mas já que você está dedicada a pesquisa de tamanha relevância, sugiro que lhe amplie o âmbito e verifique, primeiro, a época em que Manaus se chamou “porto de lenha”. Nesse aspecto, ser-lhe-á de inestimável valia a consulta à obra do poeta Aldísio Figueiras que, com seu parceiro musical, produziu composição de todos conhecida. Superada essa fase, é minha modesta sugestão que você dedique todo o seu engenho e tenacidade ao tempo em que Manaus foi chamada de “cidade sorriso”. Aí, você vai ter que mergulhar fundo nos almanaques dos cremes dentais que se produzem no país, todos eles prometendo dentes claros e brilhantes e um sorriso impecável”.

Humor puro e simples e da melhor qualidade. Semelhante ao que produziram o talento e a inspiração do cartunista aqui do Diário do Amazonas, Junior Lima. Foi na sexta-feira passada. Na charge, o homem está vendo televisão. O garotinho se aproxima e se sai com esta tirada: “Pai, estão dizendo aí que o Genoíno não vale nada. Então, por que não querem dar para ele a aposentadoria por invalidez? Assim, eu não estou entendendo é mais nada”. Genial e delicioso. O doutor Francisco Rezende, médico dos melhores, me disse que assinaria o laudo sem pestanejar.

E a semana foi pródiga em lances do tipo “belle époque”. O programa radiofônico do “Caboquinho” produziu uma pérola, satirizando o aplicativo “WhatsApp”, febre que tomou conta de todos os celulares que infernizam o nosso cotidiano. Carregando no sotaque do médio Amazonas, o humorista pede que alguém o ajude, até com um encantamento se for o caso, a livrar seu filho desse “tal de zapzap”, porque o rapaz, “encegueirado” já não estuda, não trabalha, não faz nada, a não ser mandar fotografias e mensagens. Eu bem sei, Caboquinho, a chatice que é esse tal de zapzap. Parabéns pela sacada.

Por essas e outras é que ficamos lá na rabada no ranking educacional. Talvez sem “belle époque” e sem zapzap nossos estudantes pudessem ser conduzidos para adquirir uma visão universal que lhes permitisse compreender o mundo, interpretá-lo e modificá-lo. Não deixo de sonhar com esse dia, embora tenha a plena convicção de que já aqui não estarei para vê-lo. Mas tenho netos.