Martin Bradford tocou guitarra em um bar na maior parte dos últimos dez anos, mas agora evita o local porque apresentar-se lá significaria trabalhar com o seu técnico de som. Ele lembra de ter comentado casualmente sobre seu voto pela saída da União Europeia e que perdeu instantaneamente um amigo.

“Você acabou com a minha aposentadoria”, Bradford ouviu o amigo falar, porque a esperança do técnico de som era mudar-se para outro país da União Europeia, um direito que o Brexit pode ameaçar. “Depois desta conversa, não houve mais volta”, disse Bradford, que também evita os membros da sua antiga banda, porque alguns postaram comentários nas redes sociais segundo ele, “pintavam as pessoas que votaram pela saída como racistas, fanáticas, más, estúpidas”.

Assim como a eleição do presidente Donald Trump, o referendo do Brexit de 2016 cristalizou as divisões entre cidades e centros menores, jovens e velhos, beneficiários da globalização e os que ficaram para trás. A divisão parece estar arraigada em diversos ambientes sociais. Segundo uma pesquisa, mais de 33% dos que desejam permanecer na União Europeia ficariam abalados se um parente próximo casasse com um defensor da saída, o que sugere que o Brexit acabou se tornando um conflito de valores.

E os analistas afirmam que os britânicos acabarão se definindo cada vez mais em termos do Brexit, e não da fidelidade a um partido, uma linha divisória observada também pelos psicoterapeutas. “É um pouco como a França do século 16, dividida entre católicos e protestantes”, afirmou Brett Kahr, pesquisador clínico na área de psicoterapia e saúde mental do Centro para a Saúde Mental Infantil.

“Acho que existe muito ódio de uma posição em relação à outra, e uma falta de disposição a chegar ao compromisso”. A alusão a uma guerra religiosa soa exagerada para Giles Fraser, reitor da igreja de St Mary em Newington, South London, mas ele entende que “as pessoas estão envolvidas em um diálogo de surdos, como talvez ocorreria entre crentes e não crentes”.

“Certamente há pessoas que não aceitam a posição do outro”, acrescentou. Fraser acha que o seu apoio ao Brexit em Londres, onde o voto em geral foi pela permanência, lhe custou a perda de amigos. Se é difícil ser pró-Brexit em Londres, não é mais fácil ser favorável à permanência em Meden Vale, uma antiga aldeia de mineiros em Nottinghamshire, a 240 quilômetros ao norte da capital.

“Honestamente, não acho que alguém em Meden Vale, do meu grupo de amigos ou de pessoas que conheço, tenha votado pela permanência, além de eu mesmo”, disse Chris Hawkins, que trabalha com crianças com problemas de aprendizagem. Ele disse que o maior conflito foi com um dos parentes do seu companheiro.

“Nós não fomos convidados para as festas de aniversário da família ou para reuniões, depois do referendo, enquanto antes éramos”, contou Hawkins. Ele acha que, aqui, os partidários da permanência são considerados pessoas que não pertencem ao mundo real. “Depois da votação, eu ouvi frases como: ‘Você estudou na universidade’ ”, acrescentou.

Candida Yates, professora de Cultura e Comunicação da Universidade de Bournemouth, queria formar grupos juntando os dois campos da questão na mesma sala. Logo de início, foi impossível, então ela os encontrou separadamente. “As emoções estavam à flor da pele”, afirmou.

Para os favoráveis à permanência foi como um velório. “Havia uma enorme sensação de perda. As pessoas contaram que acordaram no dia seguinte à votação chorando e em choque, sem que elas mesmas conseguissem compreender isto”. Para os favoráveis à saída foi mais uma sensação de luto do que de dor, disse Yates, e um sentimento de “terem sido deixados para trás, de terem sido esquecidos; foi realmente uma divisão entre aldeia e cidade”.

“Há uma percepção real como ‘eles de um lado e nós do outro’ e um sentimento de impotência”. Candida Yates conseguiu por fim reunir os dois grupos na mesma sala. “As pessoas falaram que está parecendo uma guerra civil. É como se voltássemos aos antigos cismas”.

(ESTADÃO)