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As autoridades da China lançaram uma campanha em nível nacional para exigir que seus intelectuais promovam um “espírito de luta patriótica” em meio à guerra comercial com os Estados Unidos, que gerou crescentes críticas entre analistas e acadêmicos do país.

A campanha começou a ser divulgada na semana passada mediante circulares emitidas pela organização do Partido Comunista da China (PCCh) e seus departamentos de propaganda, com o objetivo de “reunir pessoas brilhantes que demonstrem espírito patriótico, devoção e inovação”.

Este plano procura mobilizar intelectuais jovens e de meia idade, que participarão de todo tipo de atividades dirigidas a promover uma atitude patriótica mediante “sessões de estudo, formação e divulgação de modelos de trabalho exemplar para melhorar a identidade nacional”, diz a direção.

Com esta campanha, à qual se uniram os veículos de imprensa oficiais, as autoridades tentam fazer prevalecer as vozes que apoiam o governo em um momento em que a guerra comercial com os EUA segue se agravando (com novas tarifas chinesas aprovadas) e alguns intelectuais chineses estão se voltando contra o Executivo, algo muito pouco habitual desde a chegada do presidente Xi Jinping ao poder.

O autor que mais gerou polêmica foi Xu Zhangrun, professor de direito da prestigiada Universidade de Tsinghua (Pequim), que na semana passada publicou um ensaio inusualmente crítico com as políticas das autoridades centrais. O artigo foi amplamente compartilhado na rede social WeChat, a maior do país.

No ensaio, intitulado “Medos iminentes, esperanças imediatas”, Xu afirma que o povo chinês “sente incerteza, quase ansiedade” pelo rumo que o país está tomando, acrescentando que a atual guerra comercial com os EUA evidenciou “a fraqueza da fortaleza nacional e do seu sistema”.

O pesquisador Zi Zhongyun já criticou em junho o presidente por não implementar a tempo reformas que evitassem a guerra comercial.

Alguns veículos de imprensa internacionais começaram a falar do enfraquecimento do Executivo chinês, mas a censura e a propaganda oficial não deixam saber se o temor pelo conflito comercial tem se estendido das elites acadêmicas à população.

Outro caso foi o de Wenguang Sun, um professor aposentado da Universidade de Shandong que em julho publicou um ensaio pedindo a Xi que deixasse de gastar dinheiro em projetos no exterior, como o das Novas Rotas da Seda, repreendendo o presidente “por ter esquecido a pobreza do seu próprio país”.

Nesse sentido, Jia Qingguo, professor de relações internacionais da Universidade de Pequim, disse em um fórum que “a China deveria adotar um perfil mais discreto ao tratar com assuntos internacionais”, o que coincide com a posição de outros analistas que sugeriram que a guerra comercial poderia ter sido evitada se Pequim tivesse sido mais flexível e tivesse atuado com mais rapidez.

O conflito comercial entre EUA e China, que começou no dia 6 de julho com as primeiras tarifas de Washington sobre produtos chineses no valor de US$ 34 bilhões, ganhou intensidade desde então com a resposta chinesa e novas ameaças de tarifas americanas, também com réplicas de Pequim.

Assim, a nova campanha do governo chinês é “uma clara resposta das autoridades às críticas dos intelectuais”, declarou o analista político chinês Chen Daoyin ao jornal de Hong Kong “South China Morning Post”, enquanto o acadêmico Zhang Lifan explicava que o Partido Comunista promove o patriotismo “quando não há apoio suficiente ou coesão para a liderança central”.

Com a nova direção, o governo pretende que os intelectuais deixem de “expressar insatisfação pouco realista para o país” e reforcem sua “consciência política” pela qual devem melhorar seu senso de identidade com o Partido Comunista e com a nação.

“A educação no patriotismo tem diminuído nos últimos anos, o que gerou muitos fenômenos anormais”, disse a respeito Su Wei, um professor da Escola do Partido do Comitê Municupal de Chongqing do PCCh, ao jornal governista “Globais Times”, que advertia que “a identidade nacional está em perigo”.

Alguns intelectuais patrióticos também foram criticados e tachados de “ladrões” e “wumao” (50 centavos), uma expressão depreciativa para se referir a pessoas empregadas pelo Governo para defender a China na internet. (Agência EFE)


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