Comissão de Saúde e Sociedade de Pediatria realizam capacitação para diagnóstico das alergias alimentares - Fato Amazônico

Comissão de Saúde e Sociedade de Pediatria realizam capacitação para diagnóstico das alergias alimentares

Após debate entre mães de crianças alérgicas e representantes de órgãos públicos durante Audiência Pública na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) sobre alergia alimentar, na última sexta-feira (24), o presidente da Comissão de Saúde da Casa, deputado estadual Ricardo Nicolau (PSD), anunciou parceria com a Sociedade Amazonense de Pediatria (Saped) para capacitar os profissionais médicos da rede pública de saúde no diagnóstico e tratamento da doença.

De acordo com o parlamentar, a Comissão de Saúde dará início, nas próximas semanas, junto à presidente da Saped, a pediatra Elena Amaral dos Santos, aos preparativos de um seminário que pretende trazer ao Estado médicos especialistas em alergia alimentar. A ideia é promover um intercâmbio de informações de atendimento e tratamentos de crianças alérgicas.

“Queremos trazer ao Amazonas os melhores profissionais do país especializados em alergia alimentar para que façam uma espécie de treinamento com os pediatras, gastropediatras, nutricionistas e demais profissionais locais. Será uma troca de conhecimentos sobre os métodos e procedimentos mais modernos que estão sendo utilizados no tratamento das pessoas alérgicas”, afirmou o presidente da comissão.

A iniciativa veio após mães que fazem parte do Grupo de Apoio à Criança com Alergia Alimentar do Amazonas (Criale) terem exposto na audiência pública a dificuldade do diagnóstico da doença. A coordenadora do grupo, Valesca Martins, relatou que precisou sair do Estado para descobrir que o filho, João Arthur, à época com 1 mês de nascido, possui alergia alimentar múltipla.

“Percorremos seis pediatras da cidade e depois recorri a especialistas, como alergistas e gastropediatras para descobrir o que estava acontecendo, mas nenhum diagnóstico preciso”, disse Valesca, que hoje segue rigorosamente o único tratamento comprovadamente eficaz da doença, que consiste em eliminar todos os alimentos alérgenos e derivados da dieta da criança.

Alimentos como leite de vaca, soja, ovo, trigo, peixes e crustáceos respondem por 90% das reações alérgicas alimentares. O tipo mais comum é a Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV), que afeta aproximadamente 350 mil crianças em todo o país, segundo dados da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai). No restante do mundo, o problema atinge um a cada 20 bebês.

Especialistas apontam que o diagnóstico da APLV é considerado difícil, pois se leva até quatro meses desde os primeiros sintomas para confirmar este tipo de alergia. Dependendo de seu grau de sensibilidade, o alérgico tem risco de morte ao sofrer reações graves como a obstrução das vias aéreas e inchação da glote impedindo a passagem de ar para os pulmões.

Amazonas sai na frente

A audiência pública também teve a presença da coordenadora da campanha nacional Põe no Rótulo, a advogada paulista Cecília Cury. Com adesão massiva em todo o país, o movimento foi criado no ano passado por pais de crianças com APLV que se uniram na internet para conscientizar sobre a importância de alertas nos rótulos dos alimentos sobre ingredientes que podem causar reações alérgicas.

Cury elogiou a iniciativa da Comissão de Saúde da Aleam em colocar em pauta um problema que ainda é pouco discutido em nível nacional. A coordenadora afirmou que o Amazonas está saindo na frente em relação aos outros estados.

“Esta iniciativa deve ser aplaudida e repercutida para o Brasil todo. O Amazonas pode sair na frente, sim, em relação aos Projetos de Lei que pretende fazer rotulagem de alergênicos não só em alimentos, mas também em medicamentos. Então, tudo isso serve de impulso tanto para a Anvisa quanto para outros Estados do país”, declarou Cury.

Mudanças na legislação

Em sintonia com a campanha Põe no Rótulo, o deputado Ricardo Nicolau apresentou na Alem um conjunto de Projetos de Lei (PL), dentre os quais o PL nº 100/2015 que determina que todos os produtos alimentícios embalados no Amazonas passem a informar nos rótulos a presença ou não de ingredientes alérgenos em suas composições.

Pela proposta, o parlamentar defende que os alertas sobre alérgenos devem ser dispostos nos rótulos em destaque e com linguagem simples. Atualmente, por não existir legislação que regulamente o tema no Brasil, os rótulos de alimentos utilizam as nomenclaturas técnicas dos ingredientes alérgenos, o que dificulta a compreensão.

“Nem todo mundo sabe que ‘caseinato de sódio’ ou ‘caseína’ são os termos técnicos da proteína do leite, assim como a ‘albumina’ significa presença de ovo e a ‘lecitina’, da soja”, argumenta Nicolau. “Esses termos complicados dificultam a vida das mães que acabam, literalmente, tendo de decifrar os rótulos dos produtos.”

Estudo da Unidade de Alergia e Imunologia do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) comprovou que mais de 1/3 (39,5%) das reações alérgicas ao leite de vaca ocorrem por erros na leitura de rótulos.

Também tramita na Aleam o PL nº 99/2015 que obriga os restaurantes, bares, lanchonetes e demais estabelecimentos a adaptarem seus cardápios e o PL nº 101/2015, que pretende tornar obrigatória a inclusão de alertas de alérgenos nas embalagens dos medicamentos fabricados por laboratórios farmacêuticos situados no Estado. Há registros, em todo o país, de determinados lotes de vacinas, como febre amarela e tríplice viral, que possuíam substâncias derivadas do leite.

Mais propostas

Além de promover um seminário de capacitação junto à Saped, a Comissão de Saúde vai formalizar proposta ao Estado e Prefeitura de implantação de um programa específico de atendimento e tratamento à alergia alimentar na rede pública de saúde, com uma equipe multiprofissional composta por médicos alergistas, gastropediatras, nutricionistas e psicólogos.

“Esta Audiência Pública foi o pontapé inicial, no qual pudemos discutir a alergia alimentar em diversos aspectos, com profissionais da saúde e da educação. A partir de agora estaremos empenhados em aprimorar a legislação estadual sobre o tema e dar continuidade às ações em prol das crianças alérgicas”, assegurou o deputado Ricardo Nicolau.

Ao longo dos próximos dias, a Comissão de Saúde também produzirá um relatório contendo as informações, sugestões, relatos e experiências compartilhadas durante a Audiência Pública, que contou com mães pertencentes ao Grupo de Apoio a Crianças com Alergia Alimentar do Amazonas (Criale), Secretarias de Saúde do Estado (Susam) e Município (Semsa), Secretaria Municipal de Educação (Semed), Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam), Sociedade Amazonense de Pediatria e Conselho Regional de Nutricionistas.

Sobre a APLV

O deputado Ricardo Nicolau observa que a APLV não é o mesmo que intolerância à lactose. “A alergia é uma reação do sistema de defesa do organismo às proteínas do leite, como a caseína”, explica. “Já a intolerância se dá pela dificuldade do organismo em digerir a lactose, que é o açúcar do leite, quando há diminuição da enzima que a digere.”

Especialistas apontam que é importante dissociar o termo “lactose” do tratamento da APLV, pois alguns alimentos sem lactose possuem as proteínas do leite.

Os sintomas da APLV podem surgir em minutos, horas ou dias após a ingestão de leite de vaca ou derivados. Eles podem ser digestivos (vômitos, cólicas, diarreia, dor abdominal, prisão de ventre, etc), cutâneos (urticária), respiratórios (asma, chiado no peito, rinite), reação anafilática, baixo ganho de peso e crescimento.