Fosse eu catalogar e listar as coisas em que sou ignorante, teria que usar um computador de última geração, com memória expandida. Por exemplo: nunca me passou pela cabeça que medicina tivesse ideologia. Se é verdade que algumas patologias são próprias de determinadas regiões, isso não fere em nada a universalidade da ciência de Hipócrates; apenas exige especialização, o que, de resto, é mais do que natural no campo de que se cuida. Uma pancreatite há de ter a mesma sintomatologia aqui ou em Paris, de tal maneira que o diagnóstico poderá ser feito ao pé da torre Eiffel ou à sombra do majestoso Teatro Amazonas.

Parece não ter sido assim que as coisas se passaram no episódio dos doutores cubanos contratados para o programa Mais Médicos. Como o convênio foi firmado durante a nefasta era petista, desfez-se em frangalhos tão logo foi anunciada a nova era militarizante do capitão eleito presidente. Que coisa! Lula e Dilma nunca tiveram a mais mínima noção do que vem a ser socialismo e, muito menos, comunismo. Populistas e paternalistas sempre foram. Mas, como mantiveram relações amistosas com Cuba, foi isso elemento suficiente para que a mídia os rotulasse como os mais perigosos marxistas deste torrão abaixo do equador. De outro lado, o capitão sabe muito bem o que são as tais ideologias e por elas nutre uma aversão que beira a histeria. É um direito dele, assim como o é de quantos ainda estejam vinculados aos ossos de megatério do pensamento político. O que não dá para entender (pelo menos o meu bestunto não alcança) é onde entraria o perigo da atuação de médicos sejam eles de qualquer nacionalidade.

Parece que estou vendo: a mãezinha, muito preocupada com a saúde do pimpolho, vê-o chegar do posto de saúde trazendo um remédio para gripe. Ciosa de seus deveres maternos, indaga quem prescreveu aquela medicação e, ao ouvir que foi o doutor Juan, um cubano que atua na cidade, entra em pânico: “Tu és doido menino? Nem pensa em tomar uma porcaria dessas. Era só o que faltava. Remédio de comunista vai fazer tu ficares com a tua pele toda vermelha. E a alma também que é para ir se acostumado ao fogo do inferno. Joga essa porcaria fora e toma aqui um chá de alho com limão misturado com este restinho de Bromil, que eu guardo desde os tempos da vovó”.

Assim postas as coisas, dá para imaginar que, tivesse sido a mezinha receitada e doada por um médico de firmes convicções capitalistas, teria ela efeitos milagrosos, restaurando a saúde física da criança e, de quebra, reforçando-lhe as sadias convicções nos valores da civilização ocidental e cristã. Seria a união perfeita entre a medicina e o mais ardente e fervoroso anticomunismo.

Temos que ir em frente e encarar a realidade. Só o Palácio do Planalto vai servir de abrigo para sete generais. Legítimo. São eles cidadãos brasileiros e, como todos nós, desfrutam do direito de participar do governo de sua terra. Tomara que as escolhas não se tenham baseado apenas na patente dos ungidos. Melhor será que a capacidade de cada um tenha sido o ponto norteador. Fora disso, estaremos de volta ao círculo vicioso do apadrinhamento por mera opção pessoal, sistema que, de tão velho e cansado, já mostrou o quanto de mal pode fazer à cidadania.

Pelo que li, o futuro Ministro das Relações Exteriores ostenta um histórico de absoluta devoção a essa tal “civilização ocidental e cristã”, já referida aqui nestas mal traçadas, embora o escriba não tenha tido jamais a capacidade de lhe definir o conceito. Dá ele, ao que consta, nova roupagem, agora com sofisticada erudição, à assertiva de um prócer da ditadura que, sem nenhum pejo, sem que nem o mais leve rubor lhe tocasse a face, proclamava: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Estamos fritos e continuaremos fritos, se assim for o andar da carruagem.

E parece que vai ser. A imprensa toda publicou imagens do capitão-presidente recebendo o emissário de Trump. Saudou-o com uma continência que é a forma de cumprimento, entre os militares, por via do qual os subalternos manifestam respeito pelo superior. Foi sintomático.

Os médicos cubanos foram embora. O Brasil se livrou dessa perigosíssima ameaça. E sem alarde porque, ao contrário do que preconizava e esperava a direita lunática, nenhum deles fez greve de fome para obter asilo político aqui. Está livre, portanto, o terreno para que o futuro governante possa, qual Catilina, abusar da nossa paciência. Que a tenhamos em elevadas doses. Afinal de contas, o direito de divergência não confere a ninguém a faculdade de torcer contra sua própria pátria. Esta, volto a repetir, está muito acima de todas essas tolices.