Compartilhe
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

 Há patriotas sazonais. Os que só se lembram da bandeira brasileira em época de Copa do Mundo são bem um exemplo dessa espécie. Mas parece que até esses estão rarefeitos hoje em dia. Mesmo a muito pouco tempo do início do torneio, quase não se vê o pendão auriverde tremulando e é impossível dizer que existe aquela euforia característica. Por que será? Mudou o futebol ou mudamos nós? Quanto àquele não sei dizer, pois não me arvoro a integrar o conjunto de milhões de técnicos, uma vez que jamais tive intimidade com a bola. Se houve mudança nesse campo, há de ter sido para melhor, pois não me passa pela cabeça admitir outro vexame parecido com os sete a um. No que diz respeito a nós, povo, a coisa é mais complicada. Acho que, mesmo mantendo a esperança na conquista do título, não nos são dados muitos motivos para esbanjar alegria. Afinal de contas, impensável repetir a farsa de 1970, quando, mesmo com a ditadura derramando tortura e homicídios sobre nossas cabeças, o tricampeonato mundial funcionou como um anestésico gigante, capaz de entorpecer os “noventa milhões em ação”. Agora, transformada em duzentos milhões, essa formidável massa não se mostra com vontade de rir dos desmandos e dos desatinos, ainda que confie no talento de Neymar e companhia.

Não faz quinze dias que um sindicalismo de duvidosa vocação operária conseguiu parar o país. O pânico se implantou e o governo federal, abúlico e inerme, não teve mecanismos eficientes para contornar a crise, recorrendo, antes, ao velho e cansado expediente de sobrecarregar a população com o aumento, direto ou indireto, da carga tributária. Até esta distante província das amazonas foi vítima da patranha, vendo ameaçada a politica de incentivos fiscais da Zona Franca. Enquanto isso, o preço dos combustíveis chega a patamares surreais, com o litro da gasolina sendo vendido por valor equivalente ao de pedras preciosas.

A violência corre solta, sem peias, da floresta aos pampas, do cerrado ao pantanal. Informa o jornalista Igor Salgado, em O Globo, do dia 6 passado: “O ano de 2016 marcou mais um degrau na crise de violência do Brasil. Segundo dados do Atlas da Violência 2018, divulgado ontem pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o país teve 62.517 mortes violentas, superando pela primeira vez o patamar de 30 mortos a cada 100 mil habitantes – índice 30 vez maior do que o registrado na Europa”. É pouco? Aí vai mais, da mesma fonte, fazendo-nos corar de vergonha pelo escancaramento da discriminação decorrente da injustiça social: “A epidemia de mortes violentas, porém, não afeta todos os brasileiros da mesma forma. Entre 2006 e 2016, forma registrados cerca de 533 mil assassinatos, que vitimam sobretudo os negros. A taxa de homicídios entre negros e pardos nesse período cresceu 23,1%, chegando a 40,2 mortos a cada 100 mil habitantes”.

Convenhamos que é difícil, muito difícil, soltar fogos e pular de alegria num cenário dessa ordem. Vem-me à lembrança a história do humorista que, informado dos hábitos da hiena, formulou a pergunta: “Um animal que só tem relações sexuais uma vez por ano e se alimenta de cocô, ri de quê?” Talvez, especulo eu, da desgraça da presa que lhe tenha caído nas garras. Porque, com a violência desse jeito, a saúde pública em coma permanente, a educação reproduzindo milhares de dilmas, não sobra muito tesão nem muito alimento diferente do pitéu da hiena.

Os mais chegados todos sabem que sou um otimista inveterado e que não abro mão, absolutamente não abro, da crença no meu país. Se conseguimos sobreviver à ditadura, não haverão de ser os quatorze anos de petismo nem estes dois de “temeridades” que me demoverão da certeza de que somos vocacionados para erguer uma grande Nação, justa e igualitária. Onde todos tenham trabalho e remuneração justa, comida e diversão, educação, saúde e segurança. Creio que cada gol da seleção nacional representará um golpe de morte na corrupção e na violência, de tal maneira que, ao final, ainda que (nem pensar nisso) não tragamos a taça, o “auriverde pendão da minha terra” voltará a ser balançado e beijado pela brisa do Brasil.


Compartilhe
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •