O ex-presidente José Sarney resumiu o momento atual vivido pelo país: “estamos matando nossa democracia”. Segundo ele, “ao falar em morte da democracia, me refiro ao fato de que os Poderes têm fendas em suas estruturas que estão desestabilizando o país”.

O Parlamento não legisla. O Poder Executivo legisla no lugar do Parlamento, e o Judiciário não exerce o poder moderador que deveria ter”, disse Sarney ao jornal Valor Econômico. Sobre a prisão do ex-presidente Luz Inácio Lula da Silva, mantido preso por razões políticas, Sarney disse “lamentar muito o que aconteceu e está acontecendo com Lula”.

Sarney, que foi o primeiro presidente civil a chefiar o Executivo após o fim da ditadura militar, ressaltou que “a judicialização da política e a politização da Justiça” coloca o Brasil em um estado de insegurança jurídica. “A interferência, a nítida divisão entre os ministros, é o sinal mais evidente dessa crise. São tantas as questões submetidas ao tribunal – tudo, na verdade – que isso cria uma insegurança jurídica muito grande”, avaliou.

Para o ex-presidente, a internet e as redes sociais agravaram a crise da democracia. “A internet nos trouxe a perda dos direitos individuais, da privacidade. Criou tantas versões sobre o mesmo fato que já não sabemos qual é a verdadeira. É o que chamamos de a morte da verdade” afirmou fazendo referência ao livro “A Morte da Verdade – Notas Sobre a Mentira na Era Trump”, de Michiko Kakutani.

Sarney ressaltou, também que, apesar do combate à corrupção ser “um fenômeno importantíssimo na política que se destina a fazer correções no país”, os excessos devem ser evitados. Ele próprio foi envolvido em uma das investigações da Lava-Jato, sendo inocentado posteriormente.