O envelhecimento da população no Japão está fazendo o país passar por uma crise habitacional inédita, que vem sendo contornada com uma solução inusitada: a oferta de casas a preços baixíssimos e até de graça.

Um relatório do governo, feito em 2013, informa que mais de 8 milhões de propriedades em território japonês estão desocupadas e que quase 25% destas foram abandonadas indefinidamente. As informações são do jornal The Japan Times.

E a expectativa é a de que esse número aumente ainda mais nas próximas décadas, pelo fato de a quantidade de mortes estar superando a de nascimentos no país.

Segundo o Nomura Research Institute, a população japonesa deve cair 30% até 2065. Tal fenômeno deverá elevar o número de residências abandonadas para 21,7 milhões até 2033.

Para lidar com esse excesso de imóveis abandonados, algumas soluções inusitadas foram criadas. Uma delas, organizadas pelas administrações municipais, é a formação de bancos akiya (casas vagas, em japonês).

Herdeiros não querem as casas

Os bancos akiya fornecem uma lista online de milhares de propriedades abandonadas, que são negociadas a preços mais baixos. Muitas dessas casas tiveram moradores idosos que morreram.

Tem sido cada vez mais comum os herdeiros, por algum motivo, não quererem utilizá-las. Há propriedades que estão sendo oferecidas gratuitamente.

Uma residência em Wakayama e outra na província de Yamaguchi, por exemplo, estão sendo oferecidas de graça, pelo fato de terem sido herdadas por crianças que não desejam assumir a responsabilidade pelos imóveis.

Construções antigas

A maioria, porém, está sendo vendida a preços abaixo do mercado, que vão de 500 mil ienes (cerca de R$ 17,1 mil) a 20 milhões de ienes (R$ 683 mil). Para a realização do negócio, são levados em conta o tempo de construção, a localização e as condições de manutenção.

Grande parte dessas construções é antiga e, por elas terem sido erguidas no boom imobiliário pós-Segunda Guerra, necessitam de reformas, o que desestimula a utilização.

A superstição, muitas vezes pelo fato delas serem associadas à morte, também é um fator prejudicial para a venda.

Para o economista Francisco Pessoa Faria Júnior, mestre em Economia pela Universidade de São Paulo, mesmo com a construção civil ainda estando em crescimento no Japão, a tendência é de haver uma redução deste setor nos próximos anos.

“Isso explica por que sempre devemos olhar para o PIB (Produto Interno Bruto) per capita de um país. Em termos de PIB geral, essa questão imobiliária poderá contribuir para uma queda. Mas, no futuro, a população também vai diminuir e, dividindo o total do PIB por um número menor de pessoas, a qualidade de vida pode ser mantida. O Japão terá de se reajustar dentro dessa nova realidade.”

Para tentar amenizar o problema em curto prazo, existe também a possibilidade de prefeituras e governos de províncias japonesas darem vantagens tributárias a proprietários que realizem a demolição dos imóveis vazios. (R7)