Escolas centenárias da rede pública estadual do Amazonas são referências na qualidade da educação e palco de inúmeras histórias de vida - Fato Amazônico


Escolas centenárias da rede pública estadual do Amazonas são referências na qualidade da educação e palco de inúmeras histórias de vida

Antigas estruturas, arquitetura diferenciada, detalhes que impressionam. Assim são algumas das instituições públicas de ensino centenárias da rede estadual do Amazonas espalhadas pela cidade de Manaus e também pelo interior do Estado. Elas são reconhecidas não apenas pela referência na qualidade da educação, mas também pelas inúmeras histórias de vida que trazem em sua memória.

Administradas pela Secretaria de Estado de Educação e Qualidade do Ensino (SEDUC/AM), em Manaus, as escolas Nilo Peçanha (Centro), Sólon de Lucena (São Geraldo), Marechal Hermes (Nova Esperança), Cônego Azevedo (Nossa Senhora Aparecida), Antônio Bittencourt (Glória), além da escola Saldanha Marinho (que será transformada em sede administrativa da SEDUC), do Colégio Amazonense Dom Pedro II e dos Institutos de Educação do Amazonas (IEA) e Benjamin Constant (cedido para o Centro de Educação Tecnológico do Amazonas), todos localizados no Centro de Manaus, são unidades centenárias renomadas.

Além destas, duas escolas no interior – Oswaldo Cruz, em Humaitá e Carlos Pinho, em Manacapuru – concluem a lista.

Com 100 anos completados na última semana, a escola estadual Oswaldo Cruz, no município de Humaitá (a 675 quilômetros de Manaus), é a mais recente a se tornar centenária. Desde 1918, quando foi inaugurada, a escola teve diversas nomenclaturas e chegou a oferecer aos alunos habilitação para o magistério e também para a agropecuária.

Primeira escola do município, a unidade recebeu o nome de “Oswaldo Cruz”, em homenagem ao fundador da Medicina Experimental no Brasil, nascido em São Luiz do Piratininga, em São Paulo.

A atual gestora da escola, Nelma Freire, de 47 anos, explica que a unidade de ensino é referência não apenas na educação, mas também na história do município.

“O Grupo Escolar Oswaldo Cruz é um marco na história de Humaitá, porque nesses 100 anos, a escola teve papel fundamental na construção da educação no município. Tornou-se referência para os habitantes pela qualidade do ensino e também porque conta a história dos moradores desta cidade”, informou.

Orgulho

Freire assumiu a gestão da escola há apenas 10 meses. Ex-aluna da unidade, ela fala como é retornar à unidade – onde concluiu o magistério em 1989 – para estar à frente do trabalho de formação de novos jovens.

“É uma honra e privilégio poder atuar como gestora na escola que outrora estudei e poder contribuir de maneira direta na formação de adolescentes e jovens traz-me alegria e satisfação”, disse.

Recordando os antigos tempos no Grupo Escolar Oswaldo Cruz, a gestora diz que muitos aspectos foram modificados com o tempo, mas que a essência da época ainda é a mesma.

“Muitas coisas mudaram na escola, mas o espírito harmônico e vivo ainda existe. A escola sempre foi muito movimentada e visitada pelos moradores. Lembro-me que para as salas de aula eram interligadas e para chegar na sala que fica na parte de trás, tínhamos  que entrar pela sala da frente e isso era feito de maneira organizada para que não houvesse tumulto”, recorda a professora.

Atualmente, a escola atende 271 alunos do ensino médio e mantém um padrão de qualidade através do incentivo, estímulo e comprometimento com o processo de ensino e aprendizagem.

Décadas de histórias

Fachada em estilo neoclássico, com armas do Império do Brasil em alto relevo e colunas em pedra de lioz importadas de Portugal são detalhes que chamam atenção de quem passa pela frente do Colégio Amazonense Dom Pedro II, localizado em frente à Praça Heliodoro Balbi, na Avenida Sete de Setembro, no Centro de Manaus.

O colégio, que neste ano completa 149 anos, é considerado “patrimônio histórico do Amazonas”, tombado em 1988, pelo decreto nº 11.034.  Fundada em 1869, pelo então presidente da Província do Amazonas, João Wilkens de Matos, com o nome de Lyceu Provincial Amazonense, a escola teve outras nomenclaturas: Gymnasio Amazonense, Gymnasio Amazonense D. Pedro II e a partir da administração do governador Henoch da Silva Reis, Colégio Amazonense D. Pedro II.

Anos após sua criação, o “Estadual”, como é conhecido por muitos amazonenses, ainda é sinônimo de boa educação e formação de qualidade, sendo uma das escolas mais procuradas todos os anos pelos pais que desejam ver seus filhos ingressando nas universidades públicas.

“Eles fazem questão de vir para a escola com um propósito, estão vindo aqui para estudar e ingressar na faculdade. A procura esse ano foi muito maior que no outro ano. Cada ano aumenta mais. A escola, por ter um trabalho diversificado há tantos anos, já produz na sociedade aquela vontade de estar aqui dentro”, comentou a gestora da escola, Ana Goreti Guimarães.

Para a gestora, fazer parte da história da escola, é motivo de orgulho. “Trabalhar em uma escola que tem 148 anos, em que lá trás, já aprovava, já criava grandes vultos, é um prazer muito grande. A gente está em uma casa velha, mas a gente criou laços, já tem dentro do coração que a gente vira gymnasiano”, disse.

Amor pela instituição

Quem fez parte da escola, anos atrás, não esquece os bons tempos vivenciados no tradicional colégio. A autônoma Rejane Alcântara, de 50 anos, é exemplo disso. Aluna da escola na década de 80, ela conta que quando chegou em Manaus, vinda do município do Careiro da Várzea, tinha intenção de estudar em uma escola que fosse referência na educação.

“Fui estudar lá porque era um colégio de referência. Era muito rígido, tinha ótimos professores, cursos profissionalizantes e ainda continua sendo uma escola muito boa. Gostei muito de ter estudado lá. É algo que vou lembrar para o resto da minha vida”, afirmou.

O professor da disciplina de História da escola, Maurício Gonçalves Grillo, de 48 anos, é ex-aluno da fanfarra do Colégio Amazonense Dom Pedro II. São 21 anos fazendo parte da escola, pela qual sente verdadeiro amor.

“Da época em que entrei, em 1986, um dos detalhes que me tomou logo, foi a grandiosidade do poder da fanfarra. Era muito forte a fanfarra daqui, tanto que a gente ganhava todos os concursos que tinham. Essa é uma lembrança muito boa que tenho desse período”, afirmou o professor.

Maurício ressalta ainda que ser professor da escola da qual fez parte é um privilégio.

“Para mim, é um orgulho muito grande. Aqui eu passei a minha adolescência, minha mocidade e já estou na minha maturidade. Como historiador formado de carreira, trabalhar em um prédio desse é um gosto. Preservo muito isso aqui, brigo por isso aqui e dou muito valor a esse prédio. Para mim, é uma felicidade muito grande e eu não pretendo sair daqui para outro lugar”, afirmou o professor.

Preservação da história

Para garantir que a história tenha continuidade e chegue às novas gerações, o professor iniciou, em 2012, uma ação na escola que busca resgatar as memórias do antigo Lyceu Provincial Amazonense. Para comemorar o aniversário do colégio, todos os anos, o professor e os alunos, promovem uma exposição, contendo tudo de mais antigo presente na instituição.

“Desde 2008, tive vontade de organizar essa documentação, mas não sabia como, pois é muita coisa, e eu, sozinho, não conseguiria. Em 2012, um grupo de discentes, com devoção própria, iniciou esse trabalho de separar, etiquetar, enfim, organizar durante meses esse acervo sob a minha coordenação. Conseguimos descobrir muitas curiosidades e ao mesmo tempo, aprender com esse acervo. Juntamos todo esse material somado ao meu, e organizamos a primeira exposição, a qual chamamos de Gymnasianos”, explicou Gonçalves.

Os materiais expostos são fardas da extinta fanfarra, quadros antigos do início do século XX, o piano de 1902, troféus, livros dedicados ao Colégio e principalmente, os documentos escolares datados desde o século XIX aos dias atuais, que registram a passagem de diversas personalidades amazonenses pela escola, a grafia, a história de uma cidade a partir da educação.

A exposição acontece durante a Semana da Pátria e fica aberta ao público em geral.