FALTA D’ÁGUA NO BRASIL - Fato Amazônico

FALTA D’ÁGUA NO BRASIL

O problema da falta d’água no Brasil, até então restrito ao nordeste brasileiro e algumas regiões isoladas do País (interior do Rio Grande do Sul, p. exemplo), entrou definitivamente na pauta das discussões nacionais. Quase que diariamente, somos presenteados com reportagens e chamadas veiculadas em horário nobre, chamando nossa atenção para a importância do uso racional de nossos recursos hídricos, antes tido como fonte inesgotável, mas agora já (finalmente) considerado como um potencial problema de primeira grandeza no futuro. O que causou todo esse alvoroço? A falta d’água em São Paulo.

Parece que damos sinais de estarmos acordando de um sono profundo, uma aparente tranquilidade, que teimava em situar o problema fora de nossas fronteiras. Ao que tudo indica, percebemos que a natureza pode não ser a única vilã da escassez de recursos hídricos. Nós mesmos podemos ser nossos próprios algozes. “Não somos tão prósperos como pensávamos”, concluem alguns.

Na verdade, qualquer coisa gerida de maneira irresponsável é terreno fértil para a derrocada. Pode demorar, mas um dia a conta chega. E parece que as primeiras cobranças começaram a ser enviadas.

Vamos ser francos? Se administrássemos nossos generosos cursos fluviais como deveríamos talvez nunca a falta do líquido da vida fizesse parte do estoque de nossas preocupações. Estamos sendo perdulários? Muito provavelmente. E não é de hoje.

Temos consciência que a água é um bem extremamente precioso, essencial para a manutenção da vida e para a continuidade da existência humana. Mas na prática ignoramos tudo isso. Comportamo-nos como o filho pródigo que dissipa suas riquezas, seus recursos, seu sustento, como se deles nunca dependesse. O tempo, todavia, prova o contrário. Somos nós que vivemos em função de nossos recursos. Não somos absolutos coisa nenhuma. Nossa autonomia é apenas aparente. Aquilo que considerávamos eterno é, na verdade, passageiro; extremamente efêmero. Chega o tempo da necessidade e com ele bate o arrependimento. Começamos a repensar nossas atitudes. Talvez estejamos vivendo precisamente esse momento no Brasil.

“É preciso economizar água”, dizem alguns. “Não desperdice água”, outros proclamam. Somos inundados com apelos de toda a ordem, todos no sentido de chamar nossa atenção para a maneira como gerimos nossa riqueza hídrica. É uma forma sutil e singela de nos dizer que as coisas não vão bem e que podem ficar pior.

A grade dúvida agora é saber até que ponto estamos maduros. Até que ponto esse “susto” se irradiará pelo resto do País, transformando-se em boas práticas na gestão do veículo da vida. Nossas fontes hídricas ainda são generosas, é verdade. Que o digam os rios da Amazônia e as gigantescas fontes d’água no subsolo do centro-oeste, além de dezenas de outros caudalosos cursos situados em diversos rincões de nosso País.

Mas o desperdício ainda é grande. Eu diria gigantesco. Ainda somos ou estamos sendo muito perdulários. Ainda gerimos mal, muito mal, o precioso líquido. As estações de tratamento ainda são uma raridade. Toneladas e toneladas de lixo são lançadas diariamente em nosso solo contaminando rios, igarapés e lençóis freáticos. As águas servidas continuamente se misturam à água potável. “A natureza sempre se limpa”, argumentam alguns para justificar seu comodismo e displicência. Efetivamente, damos as costas para algumas das regras mais elementares de saneamento. O que esperar disso tudo? Bem, se nada mudar agora então podemos aguardar uma cobrança mais enérgica num futuro não muito distante. Nunca devemos nos esquecer que dois terços de nosso corpo e do planeta é composto de água. Ignorando os sinais da natureza nos arremessamos contra a própria vida e a existência do planeta ocasionando, quem sabe, a autodestruição. Visão apocalíptica? Muito pelo contrário. Pura realidade. A (ainda) moderada falta d’água de hoje pode representar apenas uma saudosa lembrança do passado.

Para nossa reflexão.

ALIPIO REIS FIRMO FILHO

Conselheiro Substituto/TCE-AM