Protestos e decepções. Parentes de tripulantes do ARA San Juan realizam em Buenos Aires uma manifestação para pedir a intensificação das buscas - Sebastian Pani/AP
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BUENOS AIRES — Todas as noites, há mais de dois meses, a advogada Itati Leguizamón vê o mesmo vídeo, no qual seu marido, Germán, diz que a ama e que em breve estarão juntos de novo. Ela já perdeu as esperanças de que isso aconteça e, seguindo à risca a filosofia de vida que ele sempre defendeu, tenta deixar para trás a dor e seguir adiante. No mesmo balneário de Mar del Plata, a cerca de 400 quilômetros de Buenos Aires, Paola Vallejos vive drama similar — o de aceitar que seu marido, Oscar Vallejos, não voltará. Ela e os três filhos do casal devem iniciar um novo caminho, sem ele.

Buscas ainda prosseguem

Germán e Oscar eram dois dos 44 tripulantes do submarino ARA San Juan, desaparecido desde meados de novembro passado. O governo argentino continua a procurar pela embarcação, embora com mínimos esforços e depois de já ter confirmado uma explosão que provavelmente não deixou vestígios para encontrar.

Itati e Paola não representam o pensamento da maioria dos familiares das vítimas. Muitos, bem mais da metade, ainda acham, ou pelo menos dizem pensar, que o submarino aparecerá e seus seres amados estarão lá, vivos. É o que afirmam, por exemplo, os pais de Oscar, ativos participantes das marchas realizadas em Mar del Plata, principalmente na base naval da cidade. Paola respeita, mas diverge e, quando armou a árvore de Natal com as filhas mais velhas, de 7 e 10 anos, lhes revelou a verdade:

— Era necessário dizer palavras que doem, mas que elas precisavam ouvir. Comecei a falar do céu e de quem está no paraíso e terminei por admitir para elas que seu pai não voltará mais.

Paola continua a vida, profundamente triste. Vai a alguns eventos com outros familiares, adere aos pedidos ao governo de Mauricio Macri e questiona “a falta de ações mais contundentes nas buscas”.

— Querem achar o submarino com dois barcos, nessa imensidão — criticou Paola.

O grupo de familiares pede uma reunião com Macri, mas a Casa Rosada não cede. Muitos ainda acham, acreditando até mesmo em videntes, que o ARA San Juan emergirá de repente, como se nada tivesse acontecido. Não é o caso de Itati, uma das primeiras a assegurar publicamente que estavam todos mortos.

— Não temos provas, nada. Mas eles não podem estar vivos — disse a advogada.

O último contato que teve com o marido foi pouco antes de o San Juan partir da cidade de Ushuaia, no extremo Sul da Argentina. Germán lhe mandou um vídeo pelo celular. E, desde novembro, esse vídeo é a última coisa que Itati vê antes de dormir.

Itati agora pensa somente em reconstruir a vida e seguir adiante, sozinha. Não se trata de algo fácil, pois muitos outros familiares continuam acampando na base naval, falando em acorrentar-se em frente à Casa Rosada para pedir ajuda ao presidente e garantindo que ainda existem elementos para manter vivas as esperanças. Itati e Paola admitem duvidar, em meio a tantas expressões de esperança, mas ambas fazem um esforço gigantesco para ter uma visão racional dos fatos e agir em função disso, sem abandonar a luta de todos pela verdade.

Orientação de videntes

O governo Macri ainda não decretou o fim da busca, e isso também mantém muitos familiares em estado de alerta, organizando missas, manifestações e eventos de todo tipo.

Mas muitos ainda esperam. Depositam suas esperanças em afirmações de videntes que levaram até mesmo a Marinha a ampliar sua área de busca. A participação das videntes contratadas por alguns familiares foi confirmada pelo porta-voz da força, Enrique Balbi:

— É verdade. Procuramos ao norte e por fora da área (original de busca), em dois pontos sugeridos pelas videntes que acompanham alguns familiares.

Já se passaram dois meses, e todos os especialistas confirmam que não existem elementos para manter viva a expectativa de sucesso na hoje limitada operação de resgate. Mas a fé foi a única saída encontrada por muitos familiares para atravessar o momento de turbulência e dor. Outros, como Itati e Paola, reconhecem que não há mais nada a fazer, a não ser assimilar a perda.


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