VEJA – Gilberto Gil, aos 76 anos, ainda tem viva na memória a época em que passou exilado do Brasil, durante a ditadura militar, que se estendeu entre 1964 e 1985. “Vivi diretamente e fui afetado pelo regime de exceção ou o nome que se queira dar à ditadura, um período difícil, com recuo da vida republicana e democrática no Brasil”, explica. Hoje, vai contra quem defende uma nova ditadura no país: “Diria que é um pouco de falta de conhecimento, falta de informação sobre o significado daquilo que aconteceu”. 

O cantor baiano conversou com VEJA após a divulgação do podcast Essenciais, original do serviço de streaming Deezer e que homenageia músicos brasileiros renomados – Alcione e Erasmo Carlos foram alguns deles. Na entrevista a seguir, Gil fala de sua internação em 2016, quando foi diagnosticado com hipertensão e insuficiência renal. “Recuperei a saúde em um patamar de tranquilidade”, diz. Confira:

Muitos fãs ficaram felizes com uma apresentação do senhor ao lado da dupla Anavitória no último mês. Gosta de acompanhar novos artistas da música? Houve um tempo na minha vida, quando era bem mais jovem e mais dedicado à percepção do que era a música popular no Brasil, em que eu poderia dizer que acompanhava melhor o que acontece aqui. Hoje em dia, isso é menor. De qualquer maneira, chega até mim o eco de muita coisa que está acontecendo, novidades que aparecem. Tive a felicidade de me aproximar de Anavitória recentemente e, além delas, tem uma quantidade enorme de gente chegando, tanto da vertente à qual eu pertenço, da música com elementos da tradição popular, quanto as novidades que vão desde os que sucedem a onda roqueira dos anos 1970 até os que chegaram com o reggae, o rap, o funk… tem muita gente. Eu, sinceramente, não tenho nem condição de acompanhar com muita atenção tudo isso. Na medida do possível, presto atenção ao que está acontecendo.

Meus 76 anos estão cheios de tudo isso: ainda de juventude, que trago comigo, de maturidade (venho vivendo com ela há muito tempo) e com a perspectiva da finitude, que não sei como será, mas espero que seja boa

Gilberto Gil

Como encara o processo de envelhecimento hoje? É uma circunstância natural da vida chegar aos 76 anos com uma condição mínima de manutenção do trabalho, dos afetos, do interesse pelos filhos, do círculo de amizades, de interesse pela vida social, política, econômica e cultural do Brasil… Tudo isso me dá uma tranquilidade na perspectiva do envelhecimento. Ao mesmo tempo, o envelhecimento é uma aproximação da finitude em relação à nossa vida. Para isso, tentei me preparar com os processos de aprimoramento pessoal e com a reflexão sobre a minha própria existência. Meus 76 anos estão cheios de tudo isso: ainda de juventude, que trago comigo, de maturidade (venho vivendo com ela há muito tempo) e com a perspectiva da finitude, que não sei como será, mas espero que seja boa. Por isso, na Bahia, nós celebramos o Nosso Senhor do Bonfim. É isso que quero para mim e para todo mundo: um bom fim. 

A internação de 2016 foi um dos temas abordados em seu último álbum, OK OK OK, lançado em agosto. Sentiu medo enquanto estava no hospital? Medo não é propriamente a palavra, mas senti um desconforto diante da necessidade de me adaptar às dificuldades com a saúde. Esse desconforto, em uma certa medida, foi superado pelo tratamento e cuidado com as minhas deficiências físicas nos últimos tempos. Recuperei a saúde em um patamar de tranquilidade, no qual eu tenho vivido recentemente e que espero que se mantenha até o fim da minha vida.

Na conversa para o podcast Essenciais, o senhor relembrou alguns momentos que passou ao longo da ditadura militar. Sabemos que uma parte da população, hoje, afirma que não houve ditadura e sim um regime militar e pede pela sua volta. O que o senhor acha dessa virada de ideias e o que diria para uma pessoa que defende isso? É um distanciamento que essas pessoas têm do significado do que foram aqueles tempos. Eu vivi diretamente e fui afetado pelo regime de exceção ou o nome que se queira dar à ditadura, um período difícil, com recuo da vida republicana e democrática no Brasil. As pessoas que hoje em dia se comprazem com essa expectativa de uma volta daquele sistema o fazem sem muito interesse por saber o que significa um regime de exceção, o que significa a derrubada dos princípios democráticos, da liberdade, da manutenção do desenvolvimento das individualidades em função da vida moderna. Eu diria que é um pouco de falta de conhecimento, falta de informação sobre o significado daquilo que aconteceu. Acho que é isso que leva as pessoas a se comprazerem com essa facilidade de achar que uma ditadura ou novo regime de exceção pode ser benéfico para o país.

O senhor também comentou sobre o momento polarizado que estamos vivendo, o que fica muito explícito nas redes sociais. Como enxerga esse comportamento nas plataformas digitais? Vê alguma forma de mitigar esse fenômeno? Ao mesmo tempo em que percebemos esse descontrole, uma oferta muito grande de oportunidades para criação de um caos sócio-político, o surgimento das redes significa um fortalecimento dos mecanismos de atuação da sociedade, de tudo que a sociedade moderna foi oferecendo. Então, fica a contradição: como ordenar um pouco mais a vida nas redes sociais franqueando a liberdade que elas representam? Esse é um processo que a gente vai viver agora.

Fico contente que tenha sido possível fazer um trabalho que ainda desperta interesse nesses vários segmentos de público, de diferentes idades e gostos