Ir à praia não é uma diversão que esteja na minha lista de prioridades. Acontece que avô, na presença dos netos, pode ter tudo menos vontade própria. Assim foi que, por decreto de Suas Altezas Imperiais, as princesas Helena Beatriz e Catarina Bianca, eu me vi nas areias de Copacabana, em pleno domingo de carnaval. Já que era inevitável, o jeito era relaxar, o que levou ao pedido da caipirinha. Enquanto sorvo a brasileiríssima bebida, chega-me a notícia de que eu havia morrido. Era lacônico o anúncio. Informava apenas que o óbito tinha acontecido no dia anterior, nas últimas horas da tarde. Ainda não era possível informar o local do velório, de forma que os ansiosos por me verem cadáver teriam que esperar a atualização do boletim, o que era prometido para no máximo duas horas mais tarde.

Se Brás Cubas foi o único defunto a escrever as próprias memórias, o que lhe rendeu imensa fama, já me sentia ombreando com ele no item de originalidade, pois seria eu o primeiro da espécie a não estar presente no macabro cerimonial da veladura do corpo. Mas fiquei imaginando a cena. Ranger de dentes não haveria, mas admito que algum choro deveria de ser derramado. Apesar do meu declarado e irreversível ateísmo, um padre estaria a jurar de pés juntos que eu havia ressuscitado para Cristo, porque na casa do Senhor existem muitas moradas, com capacidade para abrigar mesmo aqueles que não se interessam pelas normas do inquilinato celestial. O que já é um consolo, pois não sinto nenhuma vontade de, mesmo na companhia de Dante e Virgílio, empreender a soturna viagem pelos círculos infernais.

Os amigos lamentariam. Vejam que não escrevi “amigos sinceros”. No meu entender seria pleonasmo, já que não me é dado conceber possa existir amizade sem essa adjetivação. Alguns diriam mesmo que tive algumas qualidades, conquanto não me possa lembrar de nenhuma que mereça destaque. Tenho sido apenas o que sempre fui, sem qualquer preocupação com notoriedade ou outras vaidades do tipo. Afinal de contas, já se disse que “a vida, para ser vivida, há que merecê-la”.

Os que nunca foram com os meus bofes, esses estariam perdendo seu tempo em um regozijo tolo. Parece até que estou vendo o desabafo de algum ex-aluno, proclamando: “Aquele Valois era um escroto. Ele me reprovou duas vezes. Já foi tarde”. Paciência. É preciso suportar esses revezes, pois não é viável pretender obter unanimidade. Além do que paciência deve ser atributo indissociável dos defuntos, até por absoluta falta de opção. É a eternidade que se apresenta na sua infinitude, sem deixar opção para divagações levianas e pueris. Posso apenas dizer a esses irreconciliáveis “inimigos” que o rancor, o ódio e o desejo de vingança jamais integraram o elenco dos meus defeitos, de sorte que eles se poderiam dar ao luxo da complacência. Se não quiserem fazê-lo, que curtam suas animosidades com todo o vigor de que possam dispor. Os juristas romanos já diziam que “mors omniasolvit”. Em vernáculo, se é que é preciso traduzir: a morte resolve tudo.

Ia me passando despercebida a semelhança do episódio com outra morte literária. No delicioso “Dona Flor e seus dois maridos”, Jorge Amado faz com que Vadinho, folião inveterado e o primeiro dos consortes da heroína, deixe este vale de lágrimas num domingo de carnaval. Ora, segundo o que foi noticiado, o degas aqui teria sucumbido no sábado da mesma festa, o que não é pouco e só faz aumentar a sensação de que os autores da façanha são, na verdade, uns grandes pândegos. Eu só não podia imaginar era que eu, na minha mais sublime insignificância, iria ser objeto dessa coisa que está na moda, chamada “fake news”. Alias, por que não dizem simplesmente notícia falsa? Não vejo nenhuma necessidade desse colonialismo linguístico.

Bom, mas o certo é que não morri, para meu próprio gáudio e para tristeza dos infelizes. Continuo aqui, vivinho da silva, e vou logo avisando que, se depender de mim, não vou partir tão cedo, apesar dos setenta e seis anos que completo este mês. Morrer é uma coisa à toa e só lamento não ter nascido daqui a quinhentos anos quando isso estará superado pela ciência. Mas, como não posso escapar do que hoje é inevitável, vou continuar recomendando a todos que sigam o conselho do grande Gonzaguinha: “Viver e não ter vergonha de ser feliz”. Ser feliz sem preconceitos. Ser feliz sem mágoas ou lamentos. Viver, enfim, porque a vida é coisa séria.