Maria Ressa, uma das jornalistas mais influentes das Filipinas, foi presa nesta quarta-feira, (13/02), sob a acusação de cometer “calúnias virtuais” em publicações no site Rappler, do qual ela é editora-chefe. Ressa, uma crítica declarada do presidente filipino, Rodrigo Duterte, comandou a cobertura sobre a guerra às drogas promovida pelo governo do país. 

Desde que assumiu o poder, em 2016, Duterte fez do combate violento ao narcotráfico um pilar de sua administração. Em setembro do mesmo ano, ele comparou-se ao ditador Adolf Hitler e afirmou que queria matar os três milhões de dependentes químicos do país.

Segundo relatório do Observatório dos Direitos Humanos (HRW), 12.000 pessoas já foram assassinadas desde o início da política, incluindo 65 crianças. Para o líder, tratou-se de “efeito colateral.”

O trabalho da jornalista rendeu-lhe o reconhecimento internacional de militantes dos direitos humanos e fez com que Ressa fosse eleita uma das Pessoas do Ano da revista Time, dividindo o título de 2018 com figuras como o saudita Jamal Khashoggi, em uma homenagem aos jornalistas que sofrem com a repressão à imprensa.

Em entrevista à CNN, o advogado da filipina, JJ Disini, afirmou que ela será encaminhada para a corte de plantão na cidade de Pasay, onde pedirá o estabelecimento de uma fiança. O Rappler informou que a ordem de prisão de Ressa, uma das criadoras da plataforma, foi expedida por autoridades do Escritório Nacional de Investigação (NBI).

O site ainda informou que as acusações envolvem um artigo publicado em 2012, mas que Ressa foi indiciada pelo caso apenas na última semana, o que a Anistia Internacional classifica como “mais um ataque legal absurdo.”

A editora-chefe da Rappler já acumula diversas acusações de calúnia e de evasão fiscal, mas seus apoiadores afirmam que os processos tem motivação política e o objetivo de calar a imprensa independente do país asiático. O site reportou que as autoridades da polícia filipina tentaram impedir alguns de seus jornalistas de filmar a prisão de Ressa e que um dos agentes, que não quis se identificar, ameaçou “ir atrás” de outros repórteres.

Os promotores filipinos concluíram cinco inquéritos por fraude contra a jornalista e sua companhia no fim do ano passado. Algumas das acusações alegam que o veículo não declarou 3 milhões de dólares no seu Imposto de Renda de 2015, que teriam vindo de um investimento da Omidyar Network, um fundo filantrópico do fundador do eBay, Pierre Omidyar.

“Eu já usei todos os sinônimos para a palavra ‘ridículo’. Esse caso é baseado em uma acusação de que a Rappler é uma operadora de títulos. Eu, definitivamente, não sou uma corretora”, ironizou Ressa em entrevista à CNN, logo depois de ser informada sobre os processos.

O porta-voz de Duterte nega o envolvimento do presidente nas acusações contra a jornalista, mas em outra ocasião seu governo já foi hostil com Ressa, impedindo que ela e a repórter Pia Ranada, também da Rappler, tivessem acesso a sua residência oficial, o Malacanang Palace.

(VEJA)