Festejos do Carnaval começaram na quinta por decisão de Nicolás Maduro (Foto Palacio Miraflores)

Na quinta-feira (28), os negócios de sempre em Caracas não pareciam nada disso. A maioria dos venezuelanos na capital foi trabalhar, num desafio silencioso à súbita ordem do presidente Nicolás Maduro para que o feriado do Carnaval começasse nesta quinta, e não na próxima semana.

“O povo tem direito à alegria, a se reunir, dançar e viver”, disse ele em um pronunciamento pela televisão na semana passada. Mas padarias, quiosques, oficinas e restaurantes estavam funcionando.

Ônibus e o tráfego habitualmente reduzido percorriam as principais avenidas.

Mulheres e homens em trajes formais se apressavam para trabalhar no bairro empresarial de Altamira, e uma longa fila de clientes esperava para comprar artigos como fubá e café no quiosque de José Márquez, no bairro de Manzanares.

“Estamos abertos e vamos abrir amanhã, porque essa decisão não foi tomada pelo presidente. Nosso presidente é outro. Nosso presidente é Juan Guaidó”, disse Carlos Vergara, que dirige uma pet-shop no sudeste de Caracas.

Guaidó, o líder de 35 anos da Assembleia Nacional, dominada pela oposição, está lutando com Maduro sobre quem é o legítimo chefe de Estado.

Ele foi reconhecido como presidente em exercício por mais de 50 países, mas Maduro mantém a lealdade dos militares e, portanto, o poder.

A aposta de Guaidó de levar ajuda humanitária ao país foi violentamente reprimida por apoiadores de Maduro no último fim de semana.

Mas a ascensão do jovem advogado criou confiança e otimismo na oposição como não se via há anos e na quinta-feira eles demonstraram seu apoio apenas indo trabalhar.

Em uma grande agência de publicidade no bairro comercial de Sabana Grande, os empregados apareceram apesar do aviso formal da direção de que quinta e sexta-feira seriam feriado.

Eles deixaram desligadas as luzes da vitrine e da placa na fachada para evitar assédio do governo.

“Um funcionário do departamento de recursos humanos veio ao nosso escritório e perguntou: ‘Quem é o presidente de vocês?’ e todos respondemos: ‘Guaidó'”, disse Daniela García, 22, que escreve e produz comerciais na empresa. “Não podemos reconstruir nosso país sem trabalhar.”

Na fila no quiosque em Manzanares, Elizabeth Romero disse que Maduro não pode comprar afeto com dias de folga.

“Maduro só quer que as pessoas esqueçam que ele queimou a ajuda humanitária, mas a crise piora a cada dia e sua resposta é não trabalhar? É por isso que ele tem de sair”, disse ela.

Outros na fila desviaram o olhar dos celulares para concordar e manifestar apoio. (Folha de s.Paulo)