Mestre Jair Mendes: 40 anos de artes nos 50 anos do festival - Fato Amazônico

Mestre Jair Mendes: 40 anos de artes nos 50 anos do festival

“Não estou nem aí pra cobra do Jair”. A expressão popular, muito conhecida em Parintins, é fruto de um dos trabalhos do artista que dedicou mais da metade de sua vida ao festival folclórico, Jair Mendes. Mestre Jair, aos 72 anos, é pai das inovações trazidas para a festa popular, inspiração de muitos artistas e hoje, figura fundamental na histórica manifestação cultural parintinense.

Quem olha o simples caboclo, não imagina a trajetória dele nos 50 anos de festival. Referência artística, ele é o pioneiro nos movimentos de alegorias e diversas criatividades que enchem os olhos de quem contempla a festa. Artista de ponta do Boi Caprichoso, tal reconhecimento fez com que a agremiação azul nomeasse em 2014 passado um dos galpões de alegoria de “Galpão das Artes Mestre Jair Mendes", motivo de orgulho para o artista autodidata.

Tudo que sabe é fruto do dom de Deus, não aprendeu com ninguém. Os primeiros rabiscos vieram ainda na adolescência, no Colégio Nossa Senhora do Carmo, quando fazia uns “troquinhos”, assim chamou, com os desenhos para os colegas de aula. Já o primeiro contato com a festa do boi foi em 1975. Nesses 40 anos de arte e dedicação, parte deles também teve trabalhos desenvolvidos no carnaval do Rio de Janeiro e Manaus. “Em 1968 morei no Rio, porque trabalhava em uma firma de publicidade, como desenhista e arte-finalista. Admirava os carnavais de rua. Gostava da Portela, observava e tinha vontade de fazer, mas pensava que em Parintins não tinha essas coisas, mas pensei ‘tem boi-bumbá’. Fiz umas mudanças, deturpei o festival e deu no que deu”, lembra o artista.

A primeira alegoria foi no boi contrário em 1978, uma Yara feita em madeira, apresentada no Parque das Castanholeiras, um dos primeiros palcos do festival de Parintins. Ele diz que usou rodas de um velocípede para dar movimento a alegoria. Mestre Jair também gostava de brincar de boi sendo o próprio tripa. “Nessa época o boi pesava 30 quilos, a cabeça era de osso, o espinhaço de perna manca e nesse ano fiz o boi biônico, que foi um escândalo na época”, conta.

Nessas quatro décadas de festival, Jair Mendes contabiliza vários trabalhos que, para ele, marcam sua trajetória na festa parintinense. A paixão por cobras, daí o surgimento da expressão popular, a superação de cada trabalho com inovações e surpresas ano a ano, e ajuda dos dois filhos, Jair e Teco, hoje artistas do festival. Fazer bois é uma de suas paixões. O último foi no ano passado, o primeiro em cimento de sua carreira, que fica na entrada do Galpão das Artes. “Minha vida foi fazer boi”, diz.

No Caprichoso, o artista trabalha há dez anos, divididos em duas temporadas. Em meados da década de 1980 deu vida ao Caprichoso ao fazer o primeiro ‘boi biônico’ com movimentos. Em 2008 retornou ao azul para cumprir a missão de criar. Na agremiação teve e tem momentos de glória, e outros, lembra com superação, como é o caso de quando sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) em 2009. “Devo minha vida ao Caprichoso. Foi ele que me ajudou, fretou um avião para me levar até Manaus, onde tinha uma equipe me aguardando e hoje estou aqui, perfeito, pronto para continuar essa missão. Por isso, do Caprichoso não saio mais”, fala convicto.

Em 2015, Mestre Jair se diz mais uma vez presenteado pela diretoria, ao dividir o trabalho da temporada com um de seus filhos, Teco Mendes. “É uma honra muito grande", finaliza o artista que assegura a nação azulada ter uma carta na manga para surpreender na arena no jubileu do festival e conduzir o Caprichoso a vitória.