Toda gente sabe que é possível escolher e selecionar amigos. Faculdade que inexiste quando se trata de parentes. Para criar o círculo dos primeiros, exercemos um trabalho que, em última análise, se equipara à atividade do censor. Os chatos são sumariamente afastados, aqueles que você sabe serem capazes de chegar de inopinoà sua casa às sete da noite de um domingo com o pretexto de “fazer uma visita”. Existe, aí, a mescla da chatice e da inconveniência, o que é mais do que suficiente, até em nome da prudência, para eliminar o pretenso candidato a amigo. E o que dizer daqueloutro que insiste no convite para o aniversário de um ano do pimpolho? Geralmente o evento é no sábado à noite e regado, quando muito, com aluá e suco de laranja. Para comer, maionese, frango desfiado e bolo de chocolate. Não dá. Por maior que seja a leniência do “censor”, é mais do que compreensível que ele se queira manter afastado dos que integram essa legião de torturadores.

Crueldades semelhantes às acima descritas (ou piores), entretanto, quantos de nós já tivemos que suportar quando a agressão advém de um parente? Maldito direito civil que dá suporte jurídico a tamanha hediondez. É o primo que você nunca viu, mas que jura de pés juntos que a tia dele (sua mãe, no caso) era louca por ele, quando ele era criancinha. E apresenta a prova irrefutável: um carrinho de madeira com que foi presenteado no segundo aniversário e que “até hoje” é guardado com muito carinho. E daí se segue uma trilha cinematográfica de chatice, entremeada com a exibição de algumas fotos e terminando geralmente com um pedido de dinheiro. É preciso um saco de elefante para suportar tamanha violência sem deixar de lado as regras mais elementares de polidez. A propósito, tenho uma sugestão aos católicos: insiram naqueles pedidos feitos durante a missa, um específico solicitando “livrai-nos, Senhor, de um parente chato”. Não pode existir praga pior.

Mas hoje o que eu quero mesmo é deixar bem longe a lembrança desse tipo horrendo de parentesco para, em contraponto, enaltecer o parentesco verdadeiro, o fraterno e edificante. Entendam-me, por favor: escrevo no dia do aniversário do meu único irmão e a data não tem espaço para reminiscências ruins. Por quê? Simplesmente porque o doutor Raymundo Magalhães Valois Coelho é a encarnação do bom, do leal, do singelo e do humanitário. Não há, pois, como misturar figura tão exuberante com aquelas recordações pavorosas de que falei.

Meu irmão é médico. Jamais consegui descobrir de qual ancestral ele foi buscar a vocação, mas o certo é que, se a genética atuou no processo, fê-lo com uma intensidade sem par, eis que conheço profissionais do ramo que são dedicados e excelentes; nenhum, contudo, está acima do meu irmão. É comovente ver como, aos setenta e três anos de idade, continua ele laborioso como aos trinta, isto depois de décadas na desgastante atividade de radioterapeuta num hospital de câncer. Onde, aliás, já teve o desprazer de ver a morte de dois de seus colegas e onde foi vítima de intriga burocrática, mesquinha e estúpida. Coisas da vida que a verdade suplantou.

É sensível e de bom gosto o meu irmão. Íntimo de Machado e Saramago e orador como poucos, dá gosto ouvi-lo enveredar pela poesia de Fernando Pessoa, declamando “ó, mar salgado, quanto de teu sal são lágrimas de Portugal”. É na Sede, já tarde na noite de sábado, quando Zico ou Rinaldo fazem o fundo musical no violão. Vem à baila, igualmente, o poeta amazonense e Raymundo a todos sensibiliza recitando os versos cortantes de Farias de Carvalho, proclamando que “hoje eu queria escrever um poema diferente”.

Na música, como seria de esperar, suas preferências não incluem nada que se pareça com axé ou dupla sertaneja. Uma coleção de cds de proporções incríveis, combina os clássicos com o que há de melhor na música popular brasileira. Sem esquecer o lugar de destaque reservado para Sarita Montiel, com cuja voz ele não cansa de se deleitar, ouvindo os acordes de “La violeteira”. É paixão juvenil, a única que conseguiu ombrear com a Selma, sua companheira amorosa e dedicada desde os dezoito anos de idade e com a qual vai vivenciando a velhice entre filho e filhas queridas, nora e genros que o adoram e, é claro, os netos ditadores.

Ah, meu irmão! Quem me dera ter talento para te prestar todas as homenagens que fizeste por merecer ao longo de uma vida correta, honesta e digna. Não o tenho. Apenas afirmo que, quando reages jocosamente ao apelido de Lambreta, que te deu o Garça, é-me impossível não relembrar nossa infância na rua Leonardo Malcher, quando a humildade do professor Valois e a coragem de dona Lucíola, nos fizeram compreender, a nós dois e a nossas irmãs, que o mundo pode ser maior e mais belo do que o imaginam as mentes estreitas dos opressores.

Parabéns, doutor Raymundo Valois. Ainda haveremos de assistir juntos a muitas Copas do Mundo.