O pôster estava esquecido. Ele é velho, dos tempos em que teve que ser escondido durante a ditadura. Fosse ele encontrado por uma daquelas patrulhas que, rotineiramente, vasculhavam as casas dos considerados comunistas, era cadeia certa. Sem tempo de duração e sem conversa fiada de habeas corpus. Preso era preso, e pronto. Não havia satisfações a dar e, muito menos, a tomar. Era só o que faltava. Afinal de contas, estava em jogo a sobrevivência da civilização ocidental e cristã e todo cuidado era pouco com as ações patrocinadas pelo ouro de Moscou.

O que continha objeto tão perigoso? Ora, pois: um retrato do Che, com a legenda “hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás”. Querem coisa mais perigosa? Impossível. Nem a efígie do satanás seria capaz de causar maior pavor entre os impolutos governantes de então. Tinham eles, ao que parece, a certeza absoluta de que um aceno que fosse para a União Soviética ou para Cuba era certeza de que o Brasil caminhava para a mais hedionda e cruel ditadura comunista.

A deles podia. Com a deles não havia problema nenhum porque, diziam, ela tinha surgido e se sustentava precisamente da revolta do povo contra a insidiosa ação dos vermelhos. Eles, os libertadores, eram apenas os representantes dessa vontade difusa e diáfana que, sem se ter expressado em nenhum fato concreto, estaria implícita na índole, no espírito e na vontade da gente brasileira.

Tudo conversa fiada. É certo que a guerra fria tinha criado a polarização. Daí a dizer-se que o Brasil caminhava para um regime de esquerda vai distância abissal. As forças populares obtiveram ganhos razoáveis no governo do presidente João Goulart. Nada que fosse além das reivindicações naturais da massa trabalhadora, muito menos que fosse indício de avanço para a tomada do poder, fora das regras então constitucionalmente estabelecidas. Muito mais: nada que justificasse a ação militar que se desenvolveu, apeando do poder um governante legítimo e criando um regime de exceção e violência.

Não adianta agora minimizar nem relativizar. Em 64, o que se implantou no Brasil foi uma ditadura militar, nos moldes do que era preconizado pela CIA, como parte da política de proteção dos “valores ocidentais”, agindo contra o mais leve indício de adesão a qualquer ideário socialista. Foi assim aqui, foi assim no Chile, na Argentina e até no Uruguai, tido, até então, como a Suíça da América Latina. Todo o continente foi devastado, expurgado e violentado. Tudo o que cheirava a liberdade, tudo o que era ânsia de mudança, tudo foi submetido ao novo regime e tudo a ele teve que render vassalagem pela simples razão de que não havia alternativa.

Era a força pura e simples que se impunha sem nenhuma consideração com qualquer ideal humanitário. Se o indivíduo é suspeito, torturem-no até que ele confesse. Se ele confessar, matem-no. Pode nem ser preciso usar uma bala. Ele pode ser jogado no meio do oceano e, se dispuser de habilidade olímpica, pode até se salvar. Não se estava a cometer nenhuma iniquidade. Somente se mostrava quem mandava e quem tinha que obedecer. Singelo assim.

Perguntará o meu escasso leitor: e onde é que entra o tal do pôster do Che. Curiosidade mais do que natural que, agora, me proponho a satisfazer. Eu já nem me lembrava dele. Depois de tantas mudanças e arrumações na biblioteca, estava ele encostado numa parede, acho que à espera de que alguém viesse resgatá-lo para reativar no ânimo dos jovens a esperança por uma sociedade melhor e mais justa. Afinal, Che foi o guerrilheiro da liberdade, que dispensou a caneta do ministério para encontrar a morte na selva boliviana, traído na sua luta, mas altivo para sempre.

Poia não é que meu neto Fábio Junior pede à sua mãe que consiga uma cópia do pôster para ele colocar lá no cafofo onde vive e estuda, em Osasco? Como Fabinho tem apenas dezoito anos, dá para compreender (pelo menos, eu acho) a dose de vitamina cívica e patriótica que o pedido representou para este velho.

Não receberá cópia nenhuma. Entregar-lhe-ei o original. Carcomido, desgastado, mas coberto pelos infindos olhares que lhe lancei, contemplando a figura de quem soube abrir seu coração para o mundo, na esperança de que a humanidade pudesse caminhar para a mais completa fraternidade. Ó, meu neto. Não podes imaginar como te agradeço pela alegria que conseguiste lançar neste resto de caminho que ainda tenho pela frente. Entrego-te o pôster e o meu amor. Aquele vale pelo que simboliza; o último, sem tanta importância, espero que encontre acolhida em teu jovem coração. Só espero que pôster não te traga, nos tempos que se avizinham, as mesmas agruras que me causou na juventude. Nunca esmoreças.