MUNDO FLEX – Felix Valois - Fato Amazônico


MUNDO FLEX – Felix Valois

Assistia extasiado ao espetáculo da lua azul derramando beleza sobre a noite manauara, quando, não sei explicar o motivo, me veio à lembrança um episódio ocorrido há coisa de dez anos. Eu pretendia comprar um carro e verificava todas as possibilidades que me coubessem no bolso, impedindo que eu fosse parar no cadastro de devedores inadimplentes. O vendedor, jovem e simpático, se esmerava na enumeração e na descrição das vantagens do veículo que eu tinha em vista. “Para o senhor ter uma ideia, este carro pode desenvolver até duzentos quilômetros por hora”. E eu, cá comigo: não sei para quê? Primeiro, é proibido, depois, eu quase nunca ultrapasso os cinquenta. “O porta-malas tem uma capacidade que nem dá para acreditar”. E disse o número de metros cúbicos que o compartimento suportava. Novamente a minha reflexão muda: absolutamente inútil para mim, já que não pretendo sequestrar ninguém e, muito menos, transportar cadáveres.

Atingindo o máximo da eloquência, o meu interlocutor anunciou o que lhe parecia a oitava maravilha do mundo: “Por cima de tudo isso, o carro é flex”. Ficou esperando que eu levantasse e aplaudisse. Diante da minha absoluta apatia, fruto de uma ignorância então confessada abertamente, já que eu não tinha a mínima ideia do que aquilo significava, ela didaticamente, mas já desconfiado da minha inteligência, explicou: “O senhor pode abastecer com gasolina ou etanol”. De novo a minha inércia, já que, não estando com minha mulher ao lado, não lhe podia pedir que esclarecesse, com os conhecimentos da química em que é doutora, o que, diabos, era etanol. O moço pasmou visivelmente. Recebi aquele olhar de comiseração, o mesmo, acredito, que se estampa em alguém que contempla um dromedário estropiado. E, no limite da paciência, desfez as brumas da minha agressiva ignorância, comunicando-me que etanol é álcool.

Pelo que me recordo acabei comprando o tal carro, conquanto nunca tenha entendido como é que se pode desperdiçar álcool num mísero tanque de veículo. Devidamente tratado pela ciência, tenho que ele fica melhor acomodado numa garrafa de vidro, ostentando o rótulo vermelho do Johnnie Walker. A partir daí, é possível dele fazer um uso bem mais agradável do que simplesmente alimentar um motor de combustão. Reflexão que peço seja debitada à conta da minha já falada ignorância.

Pois muito que bem. O astro de prata, mais belo que nunca, já estava perto de atingir o zênite, quando outra recordação me cruzou a cabeça. Pela manhã, trafegava eu em rua de intenso movimento e vi, na lateral, um imenso “out door”, alardeando que uma instituição de ensino está oferecendo “graduação flex”. Aí definitivamente eu entrei em órbita. Que se formem profissionais com álcool, eu não duvido; mas nunca tinha ouvido falar de diplomas movidos a gasolina. Tudo, de novo, besteira da minha parte. Dei-me à pachorra de buscar informações a respeito e fiquei sabendo que “graduação flex” significa que os “alunos flex” são obrigados a frequentar apenas parte das aulas; o restante é ministrado à distância, acredito que pela internet. Já existe até normativo oriundo do Ministério da Educação (esse mesmo MEC que recomenda como livro-texto para crianças um em que o pai quer comer a filha), traçando as diretrizes a serem observadas na implantação e funcionamento dessa nova modalidade.

Santo progresso! Para que pagar (mal, diga-se de passagem) um professor, obrigando-o a comparecer diuturnamente à sala de aula? Seja esta gravada e suas cópias distribuídas a mancheias por este imenso Brasil. Já houve quem dissesse que se trata da verdadeira democratização e socialização do ensino. Tenho cá minhas dúvidas. Se comparecendo às aulas e tendo a assistência presencial de um professor, os produtos saídos atualmente dos cursos superiores não são lá essas coisas, imagino o que acontece sem esses requisitos mínimos.

Nessa onda reformista que assola o país, não ouço falar de nada em relação à educação e ao ensino. Nada que permita pelo menos vislumbrar a esperança de que um dia teremos uma política de Estado para essa área, que, apesar de sua importância, continua entregue ao “achismo”, com cada governo mudando as regras a seu bel prazer e cada vez piorando mais as coisas. Bacharéis em direito que não sabem distinguir entre “mandato” e “mandado”. Médicos que acreditam que “Papanicolau” é um mingau quente. Engenheiros que desconhecem a lei da gravidade.

Educação flex é uma ova.