NÍVEL CULTURAL Felix Valois - Fato Amazônico

NÍVEL CULTURAL Felix Valois

O sujeito dizia com orgulho que a rua da sua residência era protegida por uma “gurita”. Vá lá que a tal palavra tem até registro em dicionário, mas é de uma vulgaridade a toda prova. Pior era o lugar em que fazia compras do varejo. Era num “tiosque”. E por aí seguia o vocabulário do infeliz que, depois de alguma pesquisa, foi detectado como um dos beneficiários do revolucionário programa educacional que não admite reprovações.

Nunca vi coisa mais estúpida em toda a minha vida. Parece elementar, meu caro Watson, que um professor existe para ensinar, assim como, na forma pensamental do Conselheiro Acácio, um aluno vai à aula para aprender. Se aquele não ensina, há de ser demitido; se estoutro não aprende, o caminho óbvio é a reprovação e a repetência. Afora isso, o que resta é mero simulacro, que beira a troca de figurinhas.

Vai daí que o quadro no Brasil é assustador. Termina-se o ensino médio na duvidosa situação de analfabeto funcional e o ingresso num curso dito superior não traduz mérito algum. O nível provoca pesadelos. Indagado pela mulher, que conseguia soletrar um texto no jornal, onde ficava “essa tal de hinterlândia”, o nosso hipotético herói se exasperou: “Deixa de ser ignorante, mulher. Então não sabes que fica logo ali, depois da boca do Careiro?”

Não é para menos. O malas-artes acreditava piamente em horóscopo, a ponto de não sair de casa se a previsão do seu signo indicava remota possibilidade de atropelamento. No café da manhã, seu rádio já estava tocando um pagode bem ritmado e não havia sacrifício financeiro que deixasse de fazer para comparecer a todos os espetáculos dos grupos de axé. Óbvio que, na sala da casa, era possível encontrar todas as bem cuidadas produções culturais de duplas sertanejas e ele se sentiu pessoalmente ofendido quando lhe contaram que o Lulu Santos apontou como utilidade principal da espingarda de dois canos a eliminação dos integrantes desses duetos.

Na literatura era eclético. A revista Contigo lhe merecia uma visível predileção, mas sempre havia tempo para as incursões nos sábios textos de Paulo Coelho, que era carinhosamente tratado como “meu Mago”. Resulta intuitivo que não seria pensável deixar de assistir ao Big Brother, colhendo nessa fonte os fundamentos que alimentavam suas conversas diárias no botequim da esquina, onde o corote era indispensável e fartamente servido.

Jamais ficou escondida sua preferência pelos programas políticos dos partidos que pregam e aplicam o paternalismo como forma de resolver os problemas nacionais. Não havia bolsa na qual não tivesse pelo menos tentado a inscrição. Era titular do bolsa-família e o tempo esquentava se algum amigo, ainda que superficialmente, lhe sugerisse encontrar um emprego de carteira assinada. “Para que?”, era a resposta/pergunta. “Se o governo dá, temos mais é que aproveitar”.

Era assim. E qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas não é mera coincidência.

Lembro-me, a propósito, do que me contou o eternamente saudoso professor Samuel Benchimol: em uma prova da disciplina Direito Ambiental, pediu ele que a turma definisse o que é um ecossistema. Entre as respostas, esta preciosidade: “É um sistema de produção e reprodução de sons”.

Vai aí outra historinha, esta contada pelo professor Lourenço Braga, ex-reitor da nossa Universidade Estadual. Explicava ele, na disciplina Direito do Menor, que o então chamado pátrio poder dava aos pais o direito de corrigir os filhos, inclusive castigando-os fisicamente.

Um aluno ponderou com gravidade: “Mas isso há de ter um limite, não é, mestre?”. Diante da concordância, o jovem prosseguiu: “Quer dizer, professor, que se um pai pegar o filhinho de dois anos de idade, moer o menino de porrada e a criança ficar em coma, aí já houve um exagero”? “Claro”, foi a resposta. Veio, então, a réplica fatal: “A não ser – não é, professor? – que o pai tenha agido em legítima defesa”.

Convenhamos em que tamanho despautério não tem nada a ver com conhecimentos jurídicos de maior ou menor intensidade. Trata-se, se quisermos amenizar, ficando no âmbito regional, de pura e simples leseira.

Impõe-se a urgente reforma do sistema de ensino brasileiro, a partir dos níveis fundamentais, inclusive revendo a pletora de livros didáticos, cuja maioria tem pouco a nada a acrescentar em termos de formação de conhecimento.

Do contrário, o ridículo montará definitivamente sua tenda e estaremos contribuindo para a construção do país da estupidez.

Feliz Ano Novo.