A propósito da comemoração do Dia dos Pais, já tive oportunidade de escrever: “Deveríamos dedicar a data para agradecer aos nossos filhos, exaltando o só fato de eles existirem. Agradecer-lhes pelas alegrias que nos proporcionaram e pedir-lhes desculpas pelas negligências que, com certeza, cometemos no laborioso processo de educá-los e vê-los crescer. O pior é que a coisa passa com a rapidez da luz”.

Hoje comprovei essa velocidade vertiginosa e recebi quase um perdão pelas minhas falhas. Assisti à qualificação do Alfredo no mestrado profissional que ele cursa na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Amazonas. Foi um enlevo. Óbvio que a mim escapavam os detalhes do hermético linguajar técnico, ornado, ainda, pela formalidade acadêmica, característica primacial desse tipo de atividade. Nada disso importou. Via eu apenas o meu guri de ontem a expor aos doutores seu posicionamento, dele operando a defesa com ênfase e eloquência dignas de um tribunal do júri. O acusado teria sido absolvido com certeza, assim como, concretamente, Alfredo foi aprovado e elogiado pelos examinadores.

Não sei se meu amigo Alfredo Cabral, inimigo figadal e declarado da “melhor idade”, chegaria a ver nesse enlevo uma compensação para a implacabilidade da velhice. Mas eu lhe posso afirmar que é. A gota, a artrite, a audição diminuída, os lapsos de memória, todas essas coisas pavorosas cedem lugar ao extravasamento momentâneo do amor paterno, que se infla de orgulho e não se peja mesmo de demonstrar uma pitada que seja de vaidade. Afinal de contas ninguém adquire o grau de mestre a partir da prática de leviandades. Muito ao contrário.

Sei bem dessas coisas. Na família, a maioria respira o ambiente das academias. A mulher é doutora. Consegue elaborar uma fusão entre a química e o meio ambiente, de tal maneira que, entre a fórmula da água e a preservação da floresta, vai ministrando suas aulas a quantos queiram penetrar os mistérios da antiga alquimia. O primogênito, Luís Carlos, tem grau idêntico. Danou-se a estudar direito penal, criminologia e todas as ciências afins, logrando uma notoriedade internacional na sua luta pelo garantismo jurídico e pelo respeito mais absoluto aos direitos civis. Lucíola tem especialização em direito e, no Ministério Público onde atua, realiza notável trabalho, não se permitindo, em nenhuma circunstância, confundir condenação a qualquer custo com realização da justiça. Lúcia igualmente enveredou pela ciência de Ulpiano, onde também é especialista, e, não satisfeita, está a um ano de completar o curso de engenharia civil, realizando o que parece ter sido sempre sua vocação. E agora o Alfredo passou a ser mestre, avançando na arte-ciência da ortopedia em que atua desde o momento de conclusão da faculdade.

Já dá para receber que o quinhão de ignorância e burrice a que toda família tem direito ficou, no nosso caso específico, reservado para este velho que aqui escreve. Paciência, Pelo menos acho que posso continuar escrevendo sem grafar “cachorro” com x, nem “exceção” com dois esses. Já é um avanço. Quanto à diferença dos níveis de conhecimento e erudição, dou-me dela por compensado só com o carinho dos filhos e o doce murmurejar dos netos. Nenhum bálsamo científico pode ser superior a isso.

Por isso, vou caminhando, já lento, é verdade, entre doutores, mestres e especialistas, com a placidez que só a idade (ó, Alfredo Cabral, de novo ela!) sabe construir. Se meus filhos vencem, entoo com eles o canto da vitória. Tanto me basta. Não reivindico para mim nenhuma porção mínima de mérito. Até porque não o tenho. Sou apenas o espectador interessado (muito interessado, é verdade) no desenrolar da cruel liça diária em que se segue desenvolvendo a vida dos meus.

Até quando, não sei. Impossível saber. Mas esse seria um conhecimento sem importância. Relevante mesmo é saber que, qualquer que seja a duração do resto, estará ela preenchida pelo amor filial que tão generosa e imerecidamente me tem sido dedicado. É a felicidade quase completa, acredito. Faz contrapeso à onerosidade da velhice. A aproximação do fim é nada. Quando muito a certeza de consumação do inexorável. O que quero dizer mesmo é que, se tanto vivi, tenho o direito de achar que não foi em vão. Aí estão meus filhos para provar que, ao menos nesse ponto, tenho razão. Por isso, meus filhos, eu os aplaudo de pé e, ao cumprimentar o novo mestre, reafirmo a todos vocês a expressão, a única com que logro realizar meu sentimento: muito obrigado.