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Tem gente que não gosta do Amazonas. Até sente mesmo vergonha de ser reconhecida como amazonense. É um sentimento contrário ao ufanismo à moda Afonso Celso, para quem o Brasil era a própria réplica do Éden, e os que assim pensam, sendo pobres de espírito, têm pelo menos o consolo do Evangelho que proclama a eles pertencer o reino dos céus.

Claro que essa coisa provoca em mim um misto de revolta e pena. Não somos um paraíso, é verdade. Longe disso. E acho que temos obrigação de discutir e apontar nossos defeitos, sem o que, por óbvio, não poderão ser enfrentados nem corrigidos. Serviços, por exemplo. Estamos a anos-luz do ideal no ramo. Em alguns estabelecimentos comerciais, tem-se a nítida sensação de que o vendedor está fazendo um imenso favor em nos atender. Isso quando o faz. Não especifico as filas nos estabelecimentos bancários porque esse parece ser um problema nacional.

 O trânsito é um caso patológico. As filas duplas nas frentes das escolas são lugar-comum e ligar o pisca-alerta do automóvel parece ter o condão de desmaterializá-lo, sem que o estacionamento irregular pareça causar qualquer problema. As passarelas de pedestres não têm nenhuma utilidade, já que suicidas em potencial preferem correr no meio dos carros a subir alguns degraus para a travessia com tranquilidade.

 De qualquer forma, porém, a aversão de que cuido chega, às vezes, ao paroxismo. Parece resquício de um complexo de inferioridade, forjado ainda na mentalidade do colonialismo, a nos tratar como sub-raça.

Tenho notícia sobre uma dondoca aqui da terra, cujo exemplo, se verdadeiro, é emblemático. Consta que ela adora pescar. Não passa semana da pátria sem que ela e o respectivo cara-metade, produto híbrido da Zona Franca com a região sul, subam o Rio Negro e, lá para as bandas do Apuaú, ponham-se à cata dos tucunarés. Louvemos-lhes o bom gosto. Acontece, porém, que a respeitável senhora, quando está passando férias em Cabo Frio, proclama à inteligente roda que a cerca que o casal só realiza pescarias em França, “de preferência no Sena”. Falar no Rio Negro é coisa de caboclo e ser “essa coisa” é inadmissível. Uma perfeita idiota.

Bem por tudo isso, sempre é bom consultar a edição impressa do “Dicionário de Amazonês”, de autoria do professor Sérgio Augusto Freire de Souza, da Universidade Federal do Amazonas. Há tempos tenho no computador a versão digital da obra e me delicio repassando as expressões e palavras que só nós, amazonenses, usamos e compreendemos. É um verdadeiro primor. Revelação de uma cultura própria que, forjada nos hábitos regionais, nem por isso é melhor ou pior que as outras manifestações da espécie. Simplesmente existe. E merece respeito.

Comecemos a usar o dicionário. A tal dondoca, por exemplo, poderia ser tida à conta de uma verdadeira “carne de tetéu”, não passando de uma “abestada”, ou “abestalhada” ou, ainda, “abirobada”, ou “atuleimada”. Sinônimos não faltam. A gabolice tola em Cabo Frio não seria mais que “acesume” de  mente “afolozada”.  A “lazarenta” podia “almeno” não “atochar” tanta “leseira” na “cachola” de suas coleguinhas.

A verdade é que, com amazonenses desse tipo, nós estamos “pebados”, já que tamanha “pavulagem” só pode ser coisa de “boiola” e nós teríamos que “pedir penico”. Isso para não falar no “piracuí de bodó”, no “cotoco” e no “égua”, com que conseguimos expressar um espanto tão grande como em nenhuma outra língua.

Eu, da minha parte, sou amazonense e tenho muito orgulho disso. Banhei-me nos nossos igarapés (antes do Prosamim, é claro) e já mergulhei mesmo no meio do gigante de ébano que, boçalmente bonito, acaricia a orla da minha cidade. O resto é conversa fiada.


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