Meu nome é Célia Leal, sou amiga, esposa e companheira do Aldeney, gerente da Eletrobrás de Matupi, pai, esposo, amigo, companheiro e vítima do descaso do poder público. Neste momento, muitas lembranças boas do nosso convívio tranquilo e do homem digno e honrado que era, estão claras em minha mente e me fazem sentir um pouco melhor diante da indignação e do sofrimento que este fato nos trouxe. Indignação que não é só minha, que acredito ser das esposas das outras duas vítimas dessa barbárie que marcará profundamente nossas vidas, a vida de nossos familiares e de todas as pessoas que estão aqui e que nos acompanham no desenrolar dos fatos.

Ao longo de todos esses duas parece estarmos vivendo um grande pesadelo, estamos chorando lágrimas de sangue pelos nossos entes queridos e sabemos que se eles não forem devolvidos para nós com vida, estaremos condenados a viver juntamento com nossos familiares a dor da injustiça e da crueldade do homem. Estamos vivendo cercados de dúvidas. São questionamentos que nos fragilizam e que nos maltratam sem parar.

Onde estão nossos esposos? O que estarão passando? Como explicaremos a nossos filhos o desaparecimento de seus pais? Quem são realmente os culpados? Será que realmente se fará justiça? Será que se todos cumprissem com seu papel estaríamos passando por isso?

As perguntas são inúmeras e o sofrimento infindável, principalmente quando recebemos notícias falsa e cruéis. Jamais seremos as mesmas! Estamos tatuadas com a marca da dor para sempre. No que tange ao povo Tenharim, supostos culpados do nosso sofrimento… Precisamos lhe dizer que o respeito e a igualdade jamais serão alcançados com o uso da violência, da crueldade e da desumanidade. Precisamos viver tempos de PAZ e AMOR!!! Nossos parceiros eram homens pacíficos, solidários, amorosos e corajosos. Interagiam com esses povos e enfrentavam uma BR longa e insegura, sem medo e porque nos amavam. Sabiam que precisavam trabalhar para nos ver felizes.

Não importa o que falem. Sempre serão em nossas mentes homens de bem. Sabemos que foram traídos, talvez pela fúria de um povo insensato e sem coração, que jamais foi desrespeitado aqui pelo nosso povo.

Para mim, enquanto esposa, para família e para os amigos, apesar de estarmos passando por este momento quase insuportável, de alguma maneira nos conforta saber que a partir do sofrimento dessas três vítimas teremos chances de desvendar muitos outros desaparecimentos, muitos outros mistérios escondidos no interior daquela região. Que a verdade venha à tona, e que todos possam refletir sobre suas competências para que ninguém mais possa viver a nossa angústia. Queremos a execução fiel das leis e do direito! Que nosso povo jamais tenha que destruir para poder ser notado, que jamais possamos perder para podermos ganhar o direito de sermos ouvidos. Somos um povo de PAZ e queremos viver em PAZ!

A todos vocês, filhos de Humaitá, Apuí, Km180, Manaus e Porto Velho e demais localidades, devemos a nossa profunda gratidão, por fazer de nossas dores, suas dores, por demonstrarem-se solidários conosco e com nossos familiares. Estou orgulhosa de saber o quanto meu parceiro e seus amigos são queridos por vocês. Vocês que fizeram de nossa cruz, suas cruzes, de nossos lamentos, seus lamentos. Que nosso município e nosso povo esteja sempre unido para resolver problemas que o poder público não consegue ou não quer solucionar. Que juntos possamos fazer valer o nosso direito de ir e vir com segurança e, sobretudo, que façamos valer o nosso direito à vida que é constitucional e divino! É necessário mudança, competência, justiça, paz e muito amor em nossos corações.

A todos vocês a nossa profunda gratidão. Muito obrigada!

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