A calça comprida da moça estava rasgada em vários pontos, com visíveis sinais de esgarçamento. Comentei com minha filha Lúcia que a jovem, tão bonita, deveria poder usar uma roupa em melhores condições. A réplica foi devastadora: “Pai, uma calça dessas é caríssima e é vendida assim mesmo como estás vendo”. A coisa teve o efeito de uma epifania para mim. Com que, então, hoje é costume pagar valores elevados por objetos que já vêm estragados? Lembrei-me de que uma das minhas avós era perita em cerzir meias que chegavam àquele estado deplorável pelo uso reiterado; mas tinham sido compradas novinhas em folha. Dei-me conta da absoluta defasagem em que me encontro em questões relativas à moda ou apenas quanto aos hábitos da juventude. Foi quando, espicaçado pelo novo conhecimento, verifiquei que o rapaz, namorado talvez da moça em andrajos, usava uma camisa com dragões e cobras que se estendiam pelos braços. Novo impacto: “Meu velho, aquilo não é uma camisa; são tatuagens”. Foi a gota d´água.

Não tenho o hábito de, em conversas, fazer alusão “ao meu tempo”. Já verifiquei que as pessoas dotadas desse sestro pretendem fazer crer que tudo era melhor antigamente. Estou longe de me convencer disso. Diferente, com certeza era, mas isso não autoriza a emitir juízo de valor, até porque a vida é, por definição, dinâmica, observação que teria enquadramento perfeito nos ditos do Conselheiro Acácio. Quero significar apenas que as coisas mudam porque têm que mudar. A imobilidade é a morte, seja de humanos, de irracionais ou das sociedades em que se agrupam. Mudemos, pois, com a mente sempre aberta ao novo, que, necessariamente, vai superar o velho, como é de conhecimento mesmo dos incipientes (e até dos insipientes) nos domínios da dialética.

Na verdade, uma observação mais acurada leva, às vezes, à conclusão de que muito do que se apresenta como novidade sofreu apenas mudança de nome. Qual foi a criança que, sendo fraca ou tímida, não sofreu discriminação ou agressão por parte dos coleguinhas de escola? Essa intolerável violência é ancestral, mas ressurgiu recentemente com o apelido de “bullying”, não havendo educador ou terapeuta que perca a oportunidade de empregar o termo, como forma de demonstrar atualização e assim como se estivesse fazendo a demonstração da utilidade do fogo ou traçando a linha de evolução que permitiu a invenção da pólvora.

Os anciãos tendiam à caduquice. Era um processo tão natural que a expressão “velho caduco” tinham sabor de pleonasmo. Não era preciso ser versado em gerontologia para compreender que o fenômeno tinha a ver com o desgaste natural do cérebro por força da ação do tempo. Pois não é que a caduquice ganhou nova roupagem? Já não há caducos, por isso que eles foram substituídos pelas pessoas que têm a infelicidade de serem acometidas pelo “mal de Alzheimer”. O nome é elegante e, sendo estrangeiro, dá forças ao nosso “complexo de vira-lata”, aquela outra doença que faz brasileiros acharem que o Brasil é o pior país do mundo e que somos o exemplo de tudo o que não presta no universo. Por incrível que pareça, existe gente assim. Pergunto-me: será que é mesmo gente?

Mudança mesmo ocorreu com a língua portuguesa. Antes, ela era ensinada com carinho e estudada com dedicação. Um jovem, aos catorze anos, podia já ter completo seus estudos de gramática, reforçados pelo essencial do latim, sendo perfeitamente apto a realizar uma análise sintática e a compreender um texto. Já não é assim hoje, quando o indivíduo ingressa num curso superior sem conseguir distinguir viaduto de veado adulto e o Ministério da Educação insiste em que ele, já cascudo, pode recuperar o que não aprendeu (ou não lhe ensinaram) no nível fundamental.

Essa licenciosidade nos ensejou o espetáculo de vermos a figura de Dilma Roussef, ocupando enfatuada nada menos que a Presidência da República, confundir “diuturno” com “diurno” e “tubo de pasta” com “dentifrício”. Sinal dos tempos. Como deles também é sinal o fato de a alcaguetagem se ter transformado no principal instrumento de investigação criminal, a ponto de conferir prêmio ao delator que, já sendo criminoso, não consegue reter nem o mínimo de dignidade.

Acho que já não tenho idade para usar calça rasgada (soube que o produto é para os dois gêneros) nem de cobrir minhas pelancas com tatuagem de qualquer tipo. Mas, se o fizesse, tenho certeza de que seria menos ridículo do que certas figuras que, na proa do cenário nacional, tentam passar a ideia de que estão trabalhando pelo bem comum, quando o máximo que conseguem é camuflar as ilícitas transações em que se enlameiam. Relembro Ulysses Guimarães: “sou velho, mas não sou velhaco”.