Sem ser profeta, e muito menos vidente, nunca tive dúvida de que o governo federal, sob a regência do capitão, iria revolver o lixo histórico e desencavar práticas comuns à ditadura, da qual o atual regente é órfão declarado, assumido e inconsolável. Mas confesso que não imaginei que essa anomalia viesse à tona tão cedo, com tanta intensidade e com uma sem-cerimônia aterradora. O anúncio de que o Papa convocou, para outubro deste ano, o Sínodo sobre a Amazônia, a se reunir em Roma, fez soar a trombeta de todos os organismos de xeretagem oficial. O general-ministro do Gabinete de Segurança Institucional proclama que a agenda do encontro será “de esquerda” e a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), atual apelido do malfadado SNI, já procura seus mais qualificados “james bonds” para trabalhar em hora extra. Tudo porque, diz o alarme oficial, o sínodo pode trazer ameaça à soberania nacional.

É difícil imaginar disparate maior. Segundo matéria do Estadão, as diretrizes do sínodo serão três, assim anunciadas: “Ver” o clamor dos povos amazônicos. “Discernir” o evangelho na floresta. O grito dos índios é semelhante ao grito do povo de Deus no Egito. “Agir” para a defesa de uma Igreja com “rosto amazônico”. Não dá para compreender como a discussão dessa temática e a eventual operacionalização de suas conclusões possam colocar em risco o Estado brasileiro.

Dizem os arautos da direita implantada no poder que a Igreja Católica sempre foi aliada histórica do PT e que isso, por si só, é suficiente para justificar o alerta. Estar-se-ia à beira de uma conspiração internacional, cujo objetivo primacial seria dificultar as ações do governo Bolsonaro, desmoralizando-o ou, pelo menos, diminuindo-o aos olhos do mundo. É nítida a tendência para um isolacionismo claustrofóbico, assim como se não fizéssemos parte de um contexto. A contradição é insuperável porque, independente do espectro ideológico em que se situe alguém, a globalização é uma realidade que não pode ser desconhecida nem no âmbito privado nem, menos ainda, no setor da pública administração.

A histeria, como é de sua característica, tem laivos de ridículo. Aventou-se a possibilidade de o Itamaraty ser acionado para empreender gestões junto ao governo italiano para tratar do assunto. É que, depois da entrega ilegal de Batisti, estariam brasileiros e italianos governamentais em lua de mel, gozando das delícias que as tendências fascistas de ambos podem proporcionar. E vai daí que, numa lógica de beira de igarapé, estabeleceu-se que, situando-se o Vaticano na Itália, os peninsulares poderiam dar uma ajudinha, tentando convencer o Papa de desistir da empreitada. Como, não sei (e acho que ninguém sabe) dizer. Sei apenas que o saudoso professor Oyama Itassu, catedrático de Direito Internacional Público na velha Jaqueira, há de estar se revirando no túmulo sem entender como, ao argumento de preservar a soberania brasileira, pensamos exatamente em ferir a soberania de outro Estado, como o é, mesmo sem forças armadas, a Santa Sé.

Um sínodo, diz Houaiss, é, entre outras coisas, uma “assembleia periódica de bispos de todo o mundo que, presidida pelo papa, se reúne para tratar de assuntos ou problemas concernentes à Igreja universal”. Por exemplo, e aí a lição é da Wikipédia: “O Concílio Apostólico de Jerusalém, realizado no ano de 49 d.C. e que, na realidade, foi um sínodo. Não obstante ser apenas um sínodo, esta reunião dos primórdios do cristianismo foi de uma importância vital, porque teve como principal decisão libertar a Igreja cristã nascente das regras antigas da Sinagoga, marcando definitivamente o desligamento do cristianismo do judaísmo e confirmou para sempre o ingresso dos gentios (não-judeus) na cristandade”,

Temos, pois, que o governo brasileiro parece se arvorar o direito de interferir na elaboração de uma pauta que, por óbvio, no caso específico, é de competência exclusiva da própria igreja. Também não é da conta de ninguém como se vai dar a discussão dessa pauta, de tal forma que resulta no mínimo temerário imaginar que daí advenha algum risco para nós ou para quem quer que seja. Sem embargo disso, está no ar a notícia de que, a partir do anúncio do sínodo, os bispos brasileiros vão estar sob permanente vigilância, com agentes infiltrados nas suas reuniões, de tal maneira que os órgãos de inteligência oficial consigam desvencilhar a trama por eles traçada para tomar de assalto do Palácio do Planalto, depor o presidente e proclamar uma república episcopal, na qual o Lula seria cardeal e a Dilma… bom, a Dilma não poderia ser nada mesmo.

Como vê o meu escasso leitor, foi-se o tempo em que, esgotados todos os meios suasórios, alguém insatisfeito recebia do interlocutor a recomendação: “Vai te queixar pro bispo”. Acabou-se essa possibilidade. Se alguém for lá fazer a tal queixa, corre o risco de ter sua entrevista monitorada pelos espiões do governo, sempre alertas, qual escoteiros, para qualquer ameaça interna ou externa à nossa soberania. Minha mãe exclamaria: Eu, hein, Rosa?