PARÔNIMO E MANAUARA - Fato Amazônico

PARÔNIMO E MANAUARA

Felix Valois

Sábado de manhã, enquanto sorvo um gole de vinho do porto, Laurinho, na altivez dos seus dez anos de idade, vai entrando e anuncia: “Vô, vim estudar português contigo”. Reclamo que a prioridade é o meu beijo. Ele, dócil como sempre, cumpre o ritual para, logo em seguida, abrir um enorme caderno de exercícios, com o esclarecimento tranquilizador: “A maior parte eu já fiz, mas há questões em que estou em dúvida”. Muito confiante, estimulo-o a ir em frente. Encaramos algumas conjugações verbais, o plural de palavras esquisitas, assim como expressões adjetivas e adverbiais. Tudo corria bem e eu já me sentindo o próprio padre Antônio Vieira, senhor e dono do vernáculo. Eis senão quando o curumim dispara a pergunta cruel: “Vô, o que são palavras parônimas?” Minha espinha congelou. Dois segundos de hesitação para chegar à cansada desculpa dos velhos: “Não me lembro mais”. Não me lembro, uma ova; eu não tinha a mínima noção de que diabos poderia ser um parônimo.

Para me redimir da minha hipocrisia, dei uma injeção de bom senso na criança: “Quando a gente não sabe, tem que procurar quem saiba”. Levei-o à biblioteca, arrisquei a integridade dos ossos, subindo a escada que dá acesso às prateleiras mais altas, e baixei quantos dicionários pude encontrar. Laurinho, finalmente, ficou sabendo, e eu também, que parônimo “diz-se de cada um dos dois ou mais vocábulos que são quase homônimos, diferenciando-se ligeiramente na grafia e na pronúncia” ou “da palavra cujos fonemas podem-se confundir com os de outra (s) por razões etimológicas ou simplesmente tônicas (p.ex.: deferir: diferir; descrição: discrição; emigrar: imigrar etc.)”.

De Antônio Vieira fui rebaixado a candidato do ENEM e tive que curtir a lição de humildade que despretensiosamente me fora aplicada por meu neto. Ele, depois, foi para os vídeo games com os primos e eu fique a matutar, de novo e outra vez, sobre o que pode esperar da vida a maioria das crianças de hoje para as quais o ensino da língua é considerado coisa de somenos, assim como se alguém pudesse crescer em qualquer ramo do conhecimento sem falar e escrever com o mínimo de correção. Não dá para imaginar como isso ocorreria, na medida em que a própria e simples compreensão de um texto está a exigir que o leitor saiba concatenar as palavras, dando-lhes o sentido exato daquilo que elas buscam expressar. Vai daí que, voltando ao ENEM, havemos de convir que as seguintes manifestações nele encontradas, e às quais já me referi alhures, são prova contundente de que seus autores nunca estudaram o vernáculo de maneira minimamente satisfatória. Vamos lá: “No começo Vila Velha era muito atrazada, mas com o tempo foi se sifilizando”. “Bigamia era uma espécie de carroça dos gladiadores, puchada por dois cavalos”. “As estrelas servem para esclarecer a noite e não existem estrelas de dia porque o calor do sol queimaria elas”. Ou ainda esta: “O Nordeste é pouco aguado pela chuva das inundações frequentes”.

Que que é isso, minha gente? Tamanha sandice não pode ser admitida mesmo por quem não sabe o que é parônimo. Por essas e outras é que o cuidado com a língua deveria ser preocupação fundamental das autoridades de educação desta Terra de Santa Cruz, as quais, ao contrário, estão mais voltadas para exibir estatísticas de aprovação nos colégios públicos, como forma de propaganda eleitoral.

Como o tema comporta, fio de meu dever divulgar outra tolice que cometi no campo de que se cuida. Aqui mesmo neste espaço, há coisa de três semanas, grafei a palavra “manauense”. O professor João Lago Junior me enviou email com a seguinte ponderação: “Gostaria de dizer que sou manauara e não “manauense”. Esse neologismo parece-me tão ingrato quanto os gerundismos das empresas de telemarketing”. A pedido meu, veio o esclarecimento nestes termos: “O gentílico “manauara” é a junção dos nomes “manaó” e “sara”, sendo que o primeiro vocábulo é o nome da tribo indígena que foi encontrada pelo colonizador branco e “sara” ou “ara”, o sufixo em guarani que significa “indivíduo”. Por exemplo, as palavras indígenas guatasara e sainhansara, conforme Edelweiss, são a conjunção dos substantivos guatá (viajar) e sainhana (ajuntar) que, acrescidos do sufixo “sara” ou “ara”, formam os adjetivos derivados viajante e ajuntador, respectivamente. A mesma formação, repito, acontece em manauara. Ser manauara é assumir minha identidade baré, morena e indígena, sem qualquer vergonha ou preconceito. Assim, fico profundamente incomodado quando determinados textos jornalísticos, ainda mais quando publicados em jornais da minha terra, teimam em chamar o nascido em Manaus de “manauense”. Quando isto acontece me pergunto: Será que isto é em decorrência de um neófito desavisado que, chegando aqui em minha terra e achando o termo manauara estranho, vem com esta leseira de “manauense”? Não sei, mas gostaria de saber”.

Que severo e gentil ralho. Só me resta pedir desculpas pelo incômodo que causei ao professor e dizer-lhe que, como fica provado, a leseira não é apanágio do “neófito desavisado”, já que sou nativo e também orgulhoso das minhas origens e, apesar disso, a cometi. Mil perdões. Pelo menos agora eu sou mais manauara do que nunca.