O Globo | Cancelada pela Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro , a performance que encerraria, neste domingo, a exposição “Literatura exposta” na Casa França-Brasil, no Centro do Rio, deve ser encenada nesta segunda-feira (14/1), às 18h, na calçada à frente do centro cultural, durante a desmontagem da mostra. Em aviso publicado em rede social, o coletivo És Uma Maluca convoca outros artistas para reforçar o evento: “Não vamos nos calar. Este trabalho é apenas o início de um processo que terá muitos desdobramentos e ações. Vamos realizar a performance na rua”, diz o comunicado, reproduzido abaixo.

A apresentação faz uma crítica à tortura durante a ditadura militar no Brasil, com duas mulheres nuas em interação com a obra “A voz do ralo é a voz de deus” , instalação composta por 6 mil baratas de plástico em volta da tampa de um bueiro. Por causa da performance, a exposição acabou sendo encerrada um dia antes do prazo.

O cancelamento da performance representa a segunda proibição ao trabalho do coletivo És Uma Maluca durante a realização da exposição “Literatura exposta”.  Em dezembro, antes da atual gestão do governo do estado assumir o comando, o diretor da Casa França-Brasil, Jesus Chediak, e o então secretário estadual de Cultura, Leandro Monteiro, decidiram proibir o áudio da obra em questão, que em sua primeira versão utilizava a voz do presidente Jair Bolsonaro.  Os artistas substituíram o discurso político por uma receita de bolo, recurso utilizado frequentemente por jornais que eram censurados durante a ditadura militar.

Para um lado, ‘descumprimento de contrato’; para o outro, ‘censura’

Em nota enviada à imprensa, o secretário de Cultura e Economia Criativa, Ruan Lira, ressaltou que o cancelamento foi realizado devido a um descumprimento de contrato. Segundo ele, o veto à ação aconteceu porque a programação deste domingo não estaria incluída no contrato firmado.

“A decisão foi tomada devido ao descumprimento do contrato assinado entre as partes em 3 de julho de 2018 e que prevê o cancelamento unilateral em caso de descumprimento das obrigações estabelecidas. O referido contrato não inclui em seu objeto a programação informada para o último dia do evento. Também exige que as atividades sejam autorizadas pelo Iphan, com pedido feito com 45 dias de antecedência, o que não ocorreu – impedindo, portanto, a realização do programa agendado para este domingo”, escreveu, por meio de nota.