Semed realiza programa de reabilitação inédito no país para crianças com problemas de surdez - Fato Amazônico

Semed realiza programa de reabilitação inédito no país para crianças com problemas de surdez

A Secretaria Municipal de Educação (Semed) realiza um programa inédito no Brasil que promove a reabilitação auditiva de alunos da rede municipal de ensino e de crianças da comunidade em geral. O programa é realizado por meio da Gerência de Educação Especial (GEE) e também orienta os professores sobre mecanismos de atuação nas salas de aula onde há estudantes que receberam o implante coclear. A orientação estende-se também aos pais sobre como darem continuidade ao processo de educação dentro de casa.

OPrograma de Reabilitação de Implante Coclear (PIC) atende 16 crianças, sendo 12 alunos inclusos no ensino regular do município e quatro que não estão ligados à rede. O trabalho inovador garante um suporte às crianças no período pós-implante, dentro do contexto da fonoaudiologia educacional, que auxilia o aluno a desenvolver e compreender a fala.

Em abril deste ano, a Semed comemora um ano da implantação do programa piloto de reabilitação. Aos professores são repassadas orientações quanto às estratégias em sala de aula para alunos usuários do dispositivo e outras dúvidas em geral também são esclarecidas. Outra meta do projeto é dar suporte psicopedagógico para as atividades de escrita e alfabetização.

Desenvolvido no Complexo Municipal de Educação Especial André Vidal Araújo da Semed, localizado na Vila Amazonas, Parque Dez, zona Centro-Sul da capital, o programa conta com uma equipe de profissionais especializados, composta pela fonoaudióloga Mariana Pedrett, a psicóloga Erika Simões e a pedagoga Ana Cristina Batista.

Os atendimentos do PIC ocorrem em grupo todas às quartas-feiras e, para as crianças que necessitam de atendimento especial, há acompanhamento individual ao longo da semana. As atividades ocorrem a partir das 14h, com crianças na faixa-etária de sete a 13 anos, depois são atendidas as de três e quatro anos.

Comportamento

Prematura de cinco meses, Rebeca Vitória Batista, 7, aluna do 2º ano matutino da Escola Municipal Pequeno Príncipe, no bairro São José 1, zona Leste, é umas das crianças que, ao participar do programa de reabilitação, já apresenta grande evolução no entendimento e na fala. A mãe da menina, Leandra Oliveira Batista, 32, explica que ela fez o implante coclear do lado esquerdo em 2011. No ouvido direito, Rebeca tem uma audição moderada e precisa usar o aparelho amplificador sonoro.

Satisfeita com a evolução, comportamento e linguagem da filha, a mãe comemora os benefícios e afirma que o programa veio para atender a necessidade de continuidade do pós-implante, o que não existe em nenhum lugar do País.

“O projeto tem sido bom para ela, pois antes só ficávamos em casa e ela não tinha o convívio com outras crianças que têm o mesmo problema. Minha filha está evoluindo porque ela percebe que existem outras crianças na mesma situação. Participando do programa, ela se sente feliz ao ver outras meninas usando o mesmo aparelho que ela usa. Com certeza, ela se desenvolve mais convivendo nesse ambiente”, concluiu a mãe, lembrando que o grupo multidisciplinar orienta ainda sobre como deve ser o procedimento em casa.

Outra criança beneficiada do programa, Yamille Victoria Jacauna de Lima, 8, nasceu com problema de surdez profunda e já participa do projeto há um ano. A mãe dela, a nutricionista Arléia Pontes Jacauna, 41, contou que a filha implantou o aparelho nos dois lados do ouvido. Segundo a mãe, que acompanha a criança durante as atividades do PIC, a criança já fala algumas palavras e mostra evolução no comportamento. “A Yamille, depois que começou a fazer sua reabilitação no projeto, melhorou muito em tudo. Ela consegue acompanhar as outras crianças na escola, consegue executar as atividades do dia a dia em casa, ajuda a irmã em casa. Aliás, antes do projeto, minha filha era uma criança imperativa. Ela não tinha paciência com nada. Eu falava, ela não obedecia, mas hoje é outra criança”.

Segundo a mãe, a própria relação com as outras crianças também melhorou. “Ela consegue brincar em grupo, ter bom comportamento nos lugares e percebo que ela está muito bem, apesar do pouco tempo que fez o implante. E sei que ela vai poder encarar a sociedade com uma estrutura melhor a partir do aprendizado aqui”, completou.

Outro caso satisfatório de criança no programa de reabilitação, é de Yasmim Ruth de Souza Andrade, 6, aluna do 1º ano, da Escola Municipal Guilherme Backer, localizada no bairro Santo Antônio, zona Oeste da capital. Desde o início das atividades, Yasmim Ruth apresenta sinais de desenvolvimento na fala e uma autoestima muito grande. Segundo a dona de casa Eliete Castro de Andrade, 58, avó da menina, o trabalho realizado pelo projeto é digno de respeito. Ela comemora o desenvolvimento alcançado pela neta.

“A Yasmim está desde quando iniciou o programa. Não adianta a criança fazer o implante coclear e não ter o profissional responsável para acompanhar, porque se fizer o implante para depois dar sequência no tratamento, será difícil da criança se desenvolver. Ela não falava nada, mas depois que passou a participar das atividades do programa, vem adquirindo conhecimentos. Eu recebo as informações e procuro fazer tudo em casa para ajudá-la”, relatou.

Importância da reabilitação

Um dos pré-requisitos para que a cirurgia seja realizada é o acompanhamento fonoaudiológico (reabilitação auditiva). As crianças realizavam a cirurgia pelo SUS em outros Estados e antes do programa, quando retornavam à Manaus, a maior parte dos implantados não fazia acompanhamento terapêutico. Por consequência, apresentavam dificuldades sérias quanto à alfabetização, uma vez que os professores, por falta de orientação, acreditavam que o implante coclear (IC) fazia a criança "ouvir" de imediato, o que não é verdade. O IC é um recurso significativo, contudo, sozinho, não é capaz de promover aquisição e compreensão da fala.

Origem

OPrograma de Reabilitação de Implante Coclear da Semedé oriundo de uma pesquisa de mestrado realizada na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), que contou com apoio financeiro daFundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas(Fapeam) no ano passado. Segundo afonoaudióloga Mariana Pedrett, integrante do projeto, o trabalho pioneiro do poder público municipal busca um atendimento que não se encontra em lugar nenhum no país, conforme a pesquisa comprovou. “As crianças no ambiente escolar estão sujeitos a ruídos de cadeira, avião, carro que passa na rua, do ar-condicionado, isso não incomoda muito a gente, que é ouvinte, mas em uma criança com implante é ruim porque ela vai captar todos os ruídos ao mesmo tempo. Essas crianças precisam de vários outros acessórios de frequência modulada (FM). Com o uso do aparelho, a voz do professor vem em primeiro nível e os outros ruídos ficam abaixo”, explicou.

Participação da família

A atividade inaugural do PIC de 2014 foi realizada no dia 12 de março, no Complexo Municipal de Educação Especial da Semed. A professora e pedagoga Erika Simões tem a responsabilidade de trabalhar com os pais para que percebam a importância da participação familiar no processo, o que é considerado fundamental para o sucesso terapêutico com as crianças em casa.

“É uma oportunidade para que as crianças tenham atividades mais consistentes, para que elas sejam adequadas à sociedade de maneira mais efetiva. Se oportuniza o desenvolvimento de regra de convivência, de compreensão do que é se comunicar, da linguagem e suas formas. Por meio de atividades psicopedagogicas, com a participação da fonoaudióloga, pedagoga e a psicóloga, se trabalha esse viés biopsicossocial”, destacou Erika.

A professora e pedagoga frisou a importância do trabalho dos pais na continuidade das atividades. “É solicitado que todas as atividades psicopedagogicas tenham prosseguimento dentro do lar. Percebemos o desenvolvimento das crianças na medida em que os pais efetivamente participam do projeto, de acordo com a solicitação da fonoaudióloga, pedagoga e psicóloga. Depois disso, fazemos grupos operativos com os responsáveis para discussão das suas posturas com relação aos filhos e, dessa forma, percebemos o desenvolvimento da criança”, disse.

O implante coclear

O implante coclear é um dispositivo eletrônico de alta tecnologia, também conhecido como ouvido biônico, que estimula eletricamente as fibras nervosas remanescentes, permitindo a transmissão do sinal elétrico para o nervo auditivo, a fim de ser decodificado pelo córtex cerebral. O funcionamento do implante coclear difere do Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI). O AASI amplifica o som e o implante coclear fornece impulsos elétricos para estimulação das fibras neurais remanescentes em diferentes regiões da cóclea, possibilitando ao usuário a capacidade de perceber o som. Atualmente, existem no mundo, mais de 60 mil usuários de implante coclear.