SENADOR EVANDRO CARREIRA - Fato Amazônico

SENADOR EVANDRO CARREIRA

Felix Valois

Em 1974 a ditadura militar estava no auge. O AI-5 completava seis anos de existência e os gritos dos torturados eram abafados, ainda, pelos ecos de Guadalajara, onde a seleção nacional havia conquistado, em 70, o tricampeonato mundial de futebol. O sistema político continuava bipartidário, com Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e Movimento Democrático Brasileiro (MDB) ocupando a cena. Na primeira, a nata do reacionarismo, pululando os que tinham participado do golpe desde o momento inicial e outros, por conveniência ou puro adesismo, que singelamente lambiam as botas dos militares encastelados no poder. No segundo partido, o que restava da resistência democrática, mesmo depois da implacável triagem que o regime vinha operando de maneira sistemática, através das listas quilométricas de cassação de mandatos, isto sem falar da supressão dos instrumentos de defesa dos direitos civis e da mordaça imposta à imprensa.

Eleições diretas para os postos do Executivo eram impensáveis. No plano federal persistia a sucessão de generais do exército que, numa sinistra espécie de troca de guarda, se iam revezando no Palácio do Planalto, tudo em nome do “combate à subversão”, sustentado pela ideologia da “segurança nacional”, que, não por coincidência, tinha o apoio da CIA e convergia para os interesses dos Estados Unidos. Nos estados-membros não era, nem podia ser, diferente. Os “governadores”, eleitos por assembleias legislativas castradas e subservientes, não passavam de lugar-tenentes da cúpula golpista, desempenhando mais o papel de capatazes (ou, se quisermos adequar a linguagem àqueles tempos, de sargenteantes) do oficialato superior.

As eleições parlamentares também sofriam os efeitos do sistema repressivo, na medida em que o regime se encarregava de efetuar a poda das candidaturas, agindo formal ou informalmente para manter, tanto quanto lhe era possível, a maioria hegemônica nas casas legislativas. Daí a quase total impotência desse poder no quadro republicano, eis que qualquer manifestação exacerbada de independência poderia resultar na queda da espada sobre a cabeça desprotegida do autor da audácia.

Foi num ambiente dessa ordem que o país encarou, naquele ano de 1974, as eleições para a renovação de um terço do Senado da República. Era tamanho o receio aos golpistas que, no Maranhão, por exemplo, só um candidato, o da Arena, se inscreveu, resultando o pleito num fenômeno eleitoral, pois o tal candidato único, “disputando” consigo próprio, quase não consegue obter o número suficientes de votos para ser considerado eleito. Era o protesto popular que começava a se delinear e que iria recrudescer, anos mais tarde, no movimento das “diretas já”.

Aqui, na nossa terra, o candidato da Arena era o industrial Flávio Brito. Homem poderoso e perfeitamente entrosado com o “establishment” da época em que vivia, gozando do mais amplo respeito e apoio das entidades que integram o setor de suas atividades. Sua eleição era tida como favas contadas, não só pelo prestígio pessoal do candidato, como também porque o potencial financeiro de seu partido, para a campanha, era abissalmente superior ao de seus adversários. Acrescente-se a isso o total controle da máquina eleitoral pelo poder instituído e resulta fácil concluir que as pesquisas não tinham muitos obstáculos para apontar o provável resultado do pleito.

O MDB teve dificuldades de escolher seu candidato. Ninguém ousava botar a cabeça a prêmio para enfrentar uma eleição que – dizia-se a boca pequena – estava perfeitamente delineada e resolvida a favor dos quadros governamentais. Conchavos noite a dentro, pré-convenções e consultas, tudo para resultar no anúncio de que o partido estava lançando o nome do advogado Evandro das Neves Carreira, natural de Manaus, e filho de Tocandira Baltu Carreira e de dona Inácia das Neves Carreira. Já havia pertencido à Arena, mas foi o único corajoso que se dispôs a enfrentar o então imbatível rival.

Inicia-se a campanha. Tínhamos ainda comícios e toda sorte de mecanismos eleitorais hoje jogados às traças. Mas era em nossa incipiente televisão que a coisa se concentrava. Pois muito que bem. Era noite do pronunciamento do senhor Flávio Brito. Elegante, bem produzido para o vídeo, o candidato arenista inicia sua fala buscando demonstrar as razões do surgimento de sua candidatura. Num determinado momento, entretanto, e sem que ninguém conseguisse entender a razão de mudança tão abrupta, põe-se desancar pessoalmente o adversário, concluindo por lançar indizível ofensa à genitora de Evandro.

A expectativa para a noite seguinte era quase incontrolável. Orador fulgurante, possuidor de uma retórica contundente e original, o candidato oposicionista deveria desancar o ofensor, dizendo-lhe poucas e boas, que, diga-se de passagem, “as tivera merecido”. Nada disso. Com o semblante plácido, linguagem firme mas afável, Evandro se limita a pedir desculpas às mães amazonenses, por terem sido todas ofendidas com os despautérios lançados contra dona Inácia. Foi um nocaute. Evandro ganhou as eleições com incríveis, para aquela época, 87.103 votos. “Maninho”, como é conhecido, exerceu impecável mandato, sempre em defesa dos interesses de sua terra e da preservação do meio ambiente. Sua voz estentórea e seu amor a esta terra fazem muita falta hoje, num Senado que não conhece amazonenses.