Há quarenta anos, a alemã Ute Craemer abriu uma escola construtivista em uma favela. Hoje, atende 7.500 pessoas

O Brasil entrou na minha vida por acaso. Nasci em Weimar, na Alemanha, em 1938. Quando eu tinha 10 anos, meus pais, um professor universitário e uma costureira, tiveram de fugir do país pelas complicações após a II Guerra. Moramos no Egito, no Paquistão e na antiga Iugoslávia, onde vi a miséria de perto. Na minha volta à Alemanha, fiz faculdade de tradução de russo e francês. A pobreza que eu havia visto me fez questionar qual seria minha missão na vida. Então, já atuando como tradutora, eu me inscrevi em um programa de serviço voluntário no exterior. O objetivo era ir para lugares como o Irã, mais próximos daqueles que eu havia experimentado, mas fui parar em uma favela de Londrina. Ali, o ofício de tradutora perdeu espaço na minha vida. A comunidade tinha muitas crianças sem perspectiva. Sem perceberem, elas iluminaram meu caminho e meta de vida: trabalhar com gente, sobretudo os pequenos.

Quando retornei à Alemanha, depois de dois anos de Brasil, estudei a pedagogia construtivista Waldorf, elaborada pelo filósofo Rudolf Steiner, pensando em voltar para cá. Em 1975, vim para dar aula em uma escola de elite de São Paulo, a única a aplicar a metodologia Waldorf, e fui morar na periferia. O destino mais uma vez me trouxe surpresas: sabendo que eu era professora, algumas crianças bateram à minha porta querendo fazer atividades. Iniciei dentro de minha casa um intercâmbio: trouxe meus alunos de classe média alta para promover trabalhos com as crianças carentes. Um saiu da bolha do outro. Todos ganharam. Ao abrir a porta de casa, percebi uma infinidade de problemas e carências. Em 1979, com a chegada do casal Renate Keller e Paulo Ignácio ao trabalho voluntário, abandonei a carreira para abrir a Associação Monte Azul, que atende bairros como Jardim São Luís, Jardim Ângela e Monte Azul, que nos anos 1990 figuraram como os mais violentos do país. Já vi corpos estendidos nas vielas.

O projeto nasceu ancorado na metodologia construtivista, ligada, aqui no Brasil, aos colégios de elite. Nosso trabalho não começa nem termina no banco da sala de aula. Uma criança cuja casa sofre com goteiras terá obstáculos de aprendizado, assim como outra que vive em uma casa sem tratamento de esgoto. Com o envolvimento de moradores locais e voluntários, estabelecemos uma relação de confiança e mudamos a vida do bairro. Aterramos córregos e construímos quadras esportivas, por exemplo, mas fomos além nas questões de educação e saúde. Só em escolas, creches e serviços ambulatoriais, o projeto atende 7.500 crianças e adultos por ano. Temos 1.500 colaboradores, que vão de professores de inglês e alemão a médicos. Duas de nossas criações são a Casa Angela, um centro de parto humanizado, e um ambulatório de medicina antroposófica. O médico realiza consultas de uma hora de duração. Os medicamentos antroposóficos são obtidos da natureza. O médico receita as drogas convencionais se necessário.

Não acho que eu cumpra o papel do Estado. A antroposofia se aprofunda no ser humano e sua rica diversidade. Em geral, os governos não gostam de pluralidade. Nivelar todos de forma igual facilita o trabalho do Estado, exige menos desafios. Nós, a sociedade civil, temos de entender e desenvolver culturas diferentes para atender a demandas variadas. Sou uma promotora de ideias. Trabalho todos os dias na entidade e moro aqui na favela para facilitar a locomoção. Percorro o mundo para contar as vivências que tive e, quem sabe, incentivar outros a deixar um legado social. Tenho 80 anos, não me casei nem tive filhos. Algumas crianças se mudaram para minha casa, e tenho uma relação maternal com elas. A Monte Azul só é possível pela conexão de gente com sonhos em comum. Só a educação liberta.

(VEJA)