VAI PRO MEC – Felix Valois - Fato Amazônico


VAI PRO MEC – Felix Valois

O prédio de dois andares tem características arquitetônicas típicas de uma época e continua fincado na esquina das ruas Monsenhor Coutinho e Tapajós. Ali, desde tempos imemoriais, funcionou o Luso Sporting Clube. Como o nome permite intuir, tratava-se de uma associação esportiva fundada e mantida pelos portugueses radicados em Manaus. Sua atração principal era a pastoral encenada durante as festas natalinas, em que era possível ver desde o nascimento de Jesus, passando pelas tentações satânicas até à visão de uma sereia.

No edifício havia a escola João de Deus, que integrava a rede de ensino primário (hoje, fundamental). Seu nível era o padrão daqueles tempos; nem melhor nem pior. Mas, em razão, talvez, dessa jocosidade de gosto duvidoso que mantemos em relação aos lusitanos, formou-se uma ideia de que os alunos do estabelecimento não revelavam lá essas coisas em matéria de conhecimento. Era o que, atualmente, a boçalidade chamaria de “fake new”. O certo é que, sobretudo entre a juventude, era corriqueira a expressão “vai pro Luso”, quando alguém pronunciava uma besteira, principalmente em matéria de correção de linguagem.

Ainda que fosse de alguma procedência o conceito assim estabelecido, a escola estaria hodiernamente absolvida diante dos rumos que tomou a educação brasileira, à frente o Ministério da Educação e Cultura. Soube de um livro, patrocinado e recomendado pela Pasta, em que as regras que embasam a língua portuguesa são tratadas como coisas de somenos importância. Traduzir-se-ia por algo mais ou menos assim: não é necessário nem obrigatório falar ou escrever corretamente; basta que a pessoa se faça entender.

Santa tolice! Uma língua, como todo sistema filosoficamente entendido, tem mecanismos próprios que se inter-relacionam, sem que entre eles se possa manifestar contradição insolúvel, de tal maneira que se venham a integrar ao todo, que é o conhecimento universal. A aceitar a postura do MEC, o ensino da língua em si mesmo seria desnecessário, inútil, porque, ao fim e ao cabo, a comunicação entre as pessoas se estabeleceria de qualquer forma, ainda que estropiada e vacilante. Afinal de contas, e como prova disso, os analfabetos (e, infelizmente, ainda os há) também se comunicam.

Não sei se essa criminosa leniência com a preservação da língua integra o conteúdo programático do “politicamente correto”. Sendo esse o caso, há que fazer urgente reformulação dos objetivos dessa praga que se tem espalhado pelo mundo, a ensejar as mais estapafúrdias conclusões e atitudes. É preciso compreender que o ensino e a aprendizagem da língua portuguesa não são feitos com o desiderato de proporcionar erudição ou pedantismo. Longe disso. Trata-se apenas de uma necessidade primária, assim como toda gente tem o dever de adquirir e cultivar hábitos saudáveis de civilidade e educação, afastando a grosseria e a violência.

Claro que não desconheço a existência do coloquialismo. Machado de Assis, à mesa, não se pejaria de pedir à dona Carolina: “Me passa a farinha, querida”. Camões, entre um vinho e outro, diria ao amigo: “Te contei a última de el-rei D. Sebastião?” Nenhum dos dois, entretanto, se permitiu tal licenciosidade, nas “Memórias Póstumas” ou nos “Lusíadas”. Se a Heleninha me diz “vovô, este lápis é para mim fazer a tarefa”, não lhe vou fazer uma preleção sobre o emprego dos pronomes pessoais dos casos reto e oblíquo. É meu dever, entretanto, dando-lhe um beijo, dizer: “para mim fazer, não; para eu fazer”. A criança vai repetir a forma escorreita e teremos dado um passo à frente na luta contra a ignorância.

Mas parece que as coisas estão mudadas e com as bênçãos oficiais. Já não merece censura o linguajar da mocinha que, tirando o fome de ouvido, diz à amiga, entre um axé e outro: “Maninha, tu visse o último capítulo da novela?” Ou o do marmanjo, astro de futebol, que, depois de enfrentar o time adversário em terras distantes, enviou o zapzap para a amada, nestes termos: “Cheguemo e já joguemo. Num ganhemo nem perdemo. Impatemo”. A assinatura nessa peça era do “Nicodemo”.

Acho perfeitamente razoável parafrasear aquela irreverência de que falei no início. Assim, se alguém me disser “eu quero conversar com tu”, vou me esquivar da tortura e recomendar: “Vai pro MEC”.