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O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, não tende a gerar empatia e, também, não obteria a primeira colocação num certame destinado a aferir linguagem diplomática. Recentemente, participando de uma teleconferência, assim se expressou: “Não podemos mais tolerar essa situação que se passa no Ministério da Saúde. Não é aceitável que se tenha esse vazio. Pode até se dizer: a estratégia é tirar o protagonismo do governo federal, é atribuir a responsabilidade a estado e municípios. Se for essa a intenção, é preciso fazer alguma coisa. Isso é péssimo para a imagem das Forças Armadas. É preciso dizer isso de maneira muito clara: o Exército está se associando a esse genocídio; não é razoável. É preciso pôr fim a isso”.

Poderia ter sido mais brando ou metafórico? Cuido que sim, mas, convenhamos, não se afastou um milímetro da verdade. E a verdade, por ser dura, tende a doer. Vai daí que as palavras do ministro provocaram um “deus-nos-acuda” nos arraiais bolsonaristas. O Ministro da Defesa enviou representação à Procuradoria Geral da República, pedindo as manjadas “providências cabíveis”. E ponderou: “O ataque gratuito a instituições de Estado não fortalece a democracia”. Tem toda a razão do mundo e deveria enviar essa lição ao seu próprio chefe, o Presidente da República, que não cansa de investir contra o Legislativo e o Judiciário, assim como se esses poderes fossem um empecilho à sua maneira de “governar”.

Afinal, o que houve de tão grave, ou inverídico, nas declarações do magistrado? Nada. O Ministério da Saúde está há meses sem comando efetivo. O general (para variar) ali colocado interinamente pode saber tudo de logística, mas não entende patavinas de combate a pandemias. Se nenhuma pessoa sensata imaginaria entregar a um médico, na guerra convencional, o comando de uma frente de batalha, igualmente não lhe passaria pela cabeça chamar um militar para lutar numa guerra em que canhões e fuzis são tão inúteis quanto muro de cemitério. Cemitérios, aliás, que já acolheram os cadáveres de quase oitenta mil brasileiros, vitimados pelo inimigo invisível, enquanto o Ministério da Saúde se infla de logística.

Bolsonaro não está nem aí para nada disso. Desde que tenha seu ego massageado por fanáticos ou por simples bajuladores, segue em frente com a maior desfaçatez do mundo, a minimizar os efeitos do vírus e a proclamar, numa caturrice asnática, a eficiência de um medicamento de efeitos no mínimo duvidosos.

O ministro disse: “É preciso pôr fim a isso”. Como alguém pode discordar dessa assertiva ou tê-la como ofensiva a alguma coisa ou a alguém? Não consigo vislumbrar. Do jeito que as coisas estão é que não é possível continuar. Não é mesmo.

Em razão do exemplo vindo de cima, um número exagerado de brasileiros está fazendo pouco caso das recomendações sanitárias. Aqui mesmo, nesta mui nobre e altiva cidade de Manaus, o Fla-Flu da semana passada foi o estopim que fez explodir um verdadeiro arsenal de irresponsabilidades, com bares superlotados, pessoas sem máscara, proximidade exagerada, num desafio bem bolsonarista à ferocidade do vírus.

É isso que se pode desejar? Fio que não. Quer-me parecer, a mim que entendo tanto do vírus quanto o general Pazuello, que essa forçada politização da pandemia não aproveita a ninguém de bom senso. Quando muito pode fazer sucesso entre os que ainda conseguem acreditar no “mito”. Afinal de contas, são eles movidos pelo ódio e pela crença no “quanto pior, melhor”. Vão assim reforçando a ilusão de que o país tem governo. Não tem. Quando muito é possível dizer que tem um capataz. Um capataz não afeito ao diálogo, porque forjado no uso mais direto e implacável do relho.

Relembrar o AI-5, endeusar torturadores, achincalhar o judiciário e o legislativo não são práticas saudáveis num Estado que se pretende democrático e de direito. Em assim agindo e tratando a pandemia com tola indiferença, Bolsonaro só faz revelar sua verdadeira face de antiestadista. Sem máscara.


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