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“Não faça comentários sobre mudanças nos corpos das pessoas após o isolamento social”. A sugestão veio de uma leitora, Suzi. Ela me escreveu dizendo: “Já pensou em falar sobre esse assunto em um de seus artigos”. Como “missão dada é missão cumprida” aceitei o desafio e logo me pus a pensar sobre o assunto a partir de duas vertentes: as redes sociais e eu mesmo, já que também ganhei uns quilinhos a mais nessa quarentena.

Em primeiro lugar, passei observar os comentários nas redes sociais sobre à forma física dos brasileiros depois da reabertura das academias e nessa “pesquisa” descobri que, de fato, esse tem sido um assunto bastante comentado. São inúmeros os posts falando da forma física das pessoas, principalmente dos famosos, dos artistas, e geralmente no sentido pejorativo.

Essa postura crítica diante do corpo do outro demostra o lado mais perverso do homem contemporâneo. Insensível a dor alheia, vive de migalhas de afeto. Narcisista por excelência, o homem atual só pensa em si. Nunca tem tempo para o outro. Quando olha para o outro é para criticar. Até a felicidade do outro lhe incomoda. Assim, não há felicidade humana tripudiando sobre a dor, o sofrimento do outro. Quem é feliz de verdade quer que todo mundo seja. O outro não pode ser o meu inferno, como dizia o filósofo francês Sartre.

Em segundo lugar, fiz uma autoavaliação pessoal e descobri que também ganhei massa. Cheguei a essa conclusão pelas minhas roupas, parecem que elas diminuíram de tamanho. Mas quem não ganhou uns quilinhos a mais nessa quarentena, não é mesmo? Hoje estou inclinado a pensar como um colega de trabalho escolar: “Nessa quarentena quem não engordou foi porque pegou Covid”. Ou como disse um outro colega: “Eu prefiro voltar gordo para a escola do que pegar esse Covid-19 e morrer”.

Portanto, se você hoje está saindo dessa quarentena acima do peso dê graças a Deus, e lembre-se: hoje já somos mais de 70 mil mortos por causa do Covid-19. Não é para estar alegre? Você não foi uma vítima fatal desse vírus, e isso é uma coisa boa, maravilhosa, extraordinária. Agora, é só manter a vida em perspectiva, ter esperança de dias melhores. Com a reabertura do comércio e das academias, é só você se programar e começar a perder esses quilinhos a mais, tudo dentro do protocolo, seguindo as regras do distanciamento social, pois não custa lembrar, ainda não se tem vacina contra o vírus.

Em terceiro lugar, o corpo perfeito é o seu, do seu jeito, se acima do peso ou abaixo. O importante é ser feliz. Não existe essa de padrão. O padrão é não ter padrão. Geralmente o que leva uma pessoa a falar mal da forma física do outro é a falta de amor-próprio. Talvez seja uma “projeção de si mesmo” como diz a Psicologia. Falar mal do corpo do outro ou fazer comentários pejorativos demostra total falta de empatia com o outro, além de não ser nada elegante e humano.

Apenas para relembrar, empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro. É disso que mais precisamos nesse momento, de nos colocarmos no lugar do outro, ou de seguir o princípio cristão que diz: “Ame a teu próximo como a ti mesmo e não faça aos outros o que não quer que façam contigo”. Amor ao próximo, empatia, respeito mútuo, gentileza, flexibilidade, valores que precisam ser praticados nesse tempo de reabertura das academias.   

Somente quando nós colocarmos no lugar do outro ou nos aceitamos do jeito que somos, se gordo, magro, feio ou bonito, seremos capazes de aceitar o outro como ele é. Quando isso não acontece é porque vivemos numa “ditadura da beleza”. A concepção de que “belo é ser magro” é uma imposição da moda atual, do meio artístico. Logo, não podemos concordar com isso. Magreza também pode ser sinônimo de doença, de fome, de feiura.

Ser belo, feliz, saudável, é um processo que envolvem vários estágios. O primeiro deles, já falamos, é amor-próprio. O segundo é confiança, autoestima, vontade própria, fé, esperança… É disso que precisamos, de amor-próprio, de coragem, força e vontade de vencer. Para que isso aconteça, pense em você, ame a você, invista em você!

Por fim, você tem razão Suzi, não devemos fazer comentários sobre a forma física de ninguém após essa pandemia. O que precisamos saber é que saúde, beleza, qualidade de vida é abrir-se para o mundo do jeito que somos, se gordo, magro, feio ou bonito, e não se fechar para ele, mesmo que em muitos momentos pareça bem justificado abandoná-lo por recebermos tantas críticas. Mas não! Pelo contrário, quando recebemos uma crítica devemos pensar como o filósofo alemão Nietzsche: “O que não me mata, me fortalece”.  E continuar tocando à vida!

Luís Lemos

Filósofo, professor universitário e palestrante. Autor dos livros: O primeiro olhar – A filosofia em contos amazônicos (2011), O homem religioso – A jornada do ser humano em busca de Deus (2016); Jesus e Ajuricaba na Terra das Amazonas: Histórias do Universo Amazônico (2019). E-mail: [email protected] | Youtube: https://www.youtube.com/channel/UC94twozt0uRyw9o63PUpJHg


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