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Nos anos 70 do último século, minha irmã Antonieta dirigia o serviço jurídico de uma empresa do ramo de financiamento imobiliário. Em determinado momento constatou-se a necessidade premente de contratação de uma secretária. Era grande o volume de trabalho. Ainda não existia (que bom!) o “minha casa, minha vida”, de forma que o BNH era o grande concentrador dos programas da área. Fez-se o chamamento pelos jornais, com o esclarecimento de que os requisitos básicos para o exercício da função eram os seguintes: rapidez e assepsia ao datilografar (não havia computadores) e conhecimento da língua, permitindo redação própria. Foi grande o número de moças que se apresentou. Então, como hoje, emprego não andava dando sopa. Chegou a vez de dona Eleutéria ser entrevistada. Ela adentrou a sala, ajeitou a saia justa e proclamou com uma sinceridade tocante: “Doutora, em “tilografia” eu não sou muito boa, mas em português eu me “agaranto”. Não logrou êxito, mas deixou exemplar lição de como funciona a ousadia da ignorância. Sem qualquer pudor, ela avança e constrói seus próprios caminhos. A República atual é clara comprovação da assertiva.

O que, por falar nisso, me fez lembrar uma história contada por meu tio Dorval Magalhães. Era um roraimense convicto e figura das mais afáveis que este mundo já teve oportunidade de produzir. Agrônomo de profissão, seu interesse pela literatura era contagiante. Ninguém conseguia flagrá-lo sem portar a obra de pelo menos um poeta consagrado, cujos poemas ela declamava com fulgurância e sem afetação. Contou-me este episódio: no interior de seu Estado, perambulava uma figura mística, algo assim como um Antônio Conselheiro. Dedicava-se, segundo ele, a propagar a palavra do Nazareno, sem, é claro, a fortuna que hoje se derrama nas pregações e parlapatices de determinadas “igrejas”. Como tinha origem no catolicismo romano, o bom homem fixara na memória o trecho de uma invocação ao Cordeiro de Deus que, em latim, assim se expressava: “Agnus Dei qui tolis pecata mundi” (Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo). E lá ia o santo profeta, advertindo os pecadores, em tom apocalíptico: “Água de Deus que atola os pecados mundo”. Nunca me foi dado saber se com esse caudal de ignorância ele conseguiu pelo menos batizar algum herege na tal água de atoleiro. Mas a verdade é que, no Brasil hodierno, essa água está fazendo falta para resolver a velha e cansada seca do Nordeste e a mais recente, do Sudeste. Fio também que não seria demais pedir que ele tentasse atolar os pecados de muitos figurões da República, começando pelas presidências do executivo e dos parlamentos federais.

Ora, mas os casos contados dizem respeito a gente simples, com o mínimo de formação e sem nenhuma pretensão acadêmica. Mas deles não é privilégio o cometimento de desatinos similares aos relatados. Entre os advogados, há uma que é clássica e exemplar. Como todos sabem, o mundo jurídico é dominado pelo direito romano, de sorte que é natural a influência do latim na linguagem respectiva. Algumas expressões, como “habeas corpus”, são, aliás, intraduzíveis e se incorporaram definitivamente nos próprios textos legais. Outras são meras superfluidades, por via das quais a ignorância pretensiosa se arroga o direito de difundir uma falsa cultura, tão inútil quanto estúpida. Tomemos a expressão “data venia”. Começa a insensatez quando se coloca o acento circunflexo no “e”. Esse sinal gráfico não havia em latim, de tal forma que ele só pode ser usado na palavra “vênia”, no vernáculo, já que o termo existe com o mesmo significado do original. Tem mais e pior: “data”, nessa expressão, é o particípio do verbo latino “dare”, de maneira que ela poderia ser traduzida por algo como “seja dada vênia, ou permissão”. Pois muito que bem. Não é incomum, muito pelo contrário, encontrarmos nos fóruns deste imenso país um coleguinha causídico pronunciando ou escrevendo esta aberração linguística: “datíssima vênia”. O boçal não falou nem português nem latim e ainda logrou o fenômeno paranormal de conseguir um superlativo sintético para um termo verbal. Por essas e outras é que o consultor jurídico da Pretapress tinha o sugestivo nome de “Doutor Data Venia”. Para os mais novos: Pretapress fazia parte do repertório de gozações com que nos brindava o imortal Sérgio Porto, de todos conhecido como Stanislaw Ponte Preta.

Concluo: conta-se que o general Costa e Silva, quando foi guindado ao comando supremo da ditadura militar, se agastou e passou um pito no seu ajudante de ordens, ou seja lá o nome que tivesse o cargo do infeliz que estava à imediata disposição dele. Viajavam os dois por uma estrada, no automóvel presidencial, com batedores e toda a parafernália própria da ocasião, quando o ilustre guerreiro, em tom ríspido, se dirigiu ao assessor. “O senhor tem até amanhã de manhã para me dar explicações cabais do por que, sendo eu presidente da República, não estou a par do que anda acontecendo na estatal Emobrás”. Como nunca tinha ouvido falar dessa empresa, o ajudante ficou em palpos de aranha e tremendo só de pensar em como ia se desvencilhar da incumbência. Tudo se esclareceu logo em seguida. Na sequência do trajeto, a comitiva passou por um trecho com máquinas e tratores, no qual estava fincada uma enorme placa com os dizeres: “Ministério dos Transportes – EM OBRAS”. Qualquer semelhança com a atualidade é mera coincidência.


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