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Cheguei a pensar que Bolsonaro estava melhorando de sua estupidez institucional. Fiquei feliz com isso porque parecia um sinal de que o país poderia voltar a uma normalidade esquecida há dezoito meses. Mas tudo indica que o mal de Sua Excelência não tem cura. Sua fixação no autoritarismo, de par com um irremediável complexo de macheza, norteia um comportamento que sempre soou, e continua soando, como muito estranho.

O mais recente episódio é sintomático: acometido pelo covid-19, o presidente, revelando uma birra pueril, insistiu em continuar minimizando a doença e fez questão de ingerir um medicamento que noventa e nove por cento dos cientistas do mundo não recomendam, por não ter eficácia comprovada.

Para mim não faz sentido aludir à ironia de o mal pandêmico tê-lo atingido, a ele que sempre fez pouco caso de assunto tão grave. Muito menos chegaria ao exagero inadmissível de imaginar que a morte de figura tão bizarra poderia servir como exemplo. Exemplos desse tipo já os temos nas casas de mais de sessenta e oito mil brasileiros. É um cenário macabro e o que se há de buscar é a sobrevivência do maior número possível de afetados, mesmo daqueles que, por irreversível ignorância, teimam em posar de brincalhões diante da angústia de todo um povo.

Com essa atitude, Bolsonaro deixou claro acreditar que a infecção pelo vírus, antes de lhe atingir a saúde física, foi um golpe fatal contra sua insuperável autoproclamada masculinidade. Traduz-se assim: ficar doente é coisa de boiola. Já tive o privilégio de ler vários livros sobre a história da Humanidade. Nunca, em nenhum momento, se me deparou qualquer alusão ao fato de que adoecer seja apanágio de mulheres ou de homossexuais, ou de qualquer outro gênero entre os muitos hoje inventados. Mas para o presidente é. Atleta, guerreiro dos mais indomáveis, a ponto de ter a tortura como natural, ele não se pode conformar com a evidência de que é apenas um ser humano. Ainda. Se vai conseguir manter esse “status” só o futuro dirá.

A propósito de tanta fixação na masculinidade, veio-me à lembrança a canção “Homem com H”, de autoria de Antônio Barros. Diz ela: “Quando eu estava pra nascer/De vez em quando eu ouvia/Eu ouvia a mãe dizer/Ai meu deus como eu queria/Que esse cabra fosse homem/Cabra macho pra danar/Ah! Mamãe aqui estou eu/Mamãe aqui estou eu/Sou homem com H/E como sou!”.

Interpretando a música com laivos de genialidade, Ney Matogrosso fez tremendo sucesso no rádio e na televisão no final da década de setenta do último século. Não sei se Bolsonaro teria o mesmo talento do artista, mas bem que ele poderia tentar uma regravação. Cair-lhe-ia como luva. Seria mesmo a glória, uma verdadeira apoteose, quando, ostentando a faixa presidencial e exibindo seu físico atlético, ele proclamasse: “Nunca vi rastro de cobra/Nem couro de lobisomem/Se correr o bicho pega/Se ficar o bicho come/Porque eu sou é homem/Menino, eu sou é homem/Menino eu sou é homem/E como sou!”.

Enquanto o Palácio do Planalto não produz e lança o disco, destinado a ser sucesso de vendas, nós outros, mortais comuns, vamos continuar inventando paciência para suportar e vencer a crise. Eu próprio estou completando quatro meses de isolamento. É sofrido, é angustiante, mas encontro alento ao ver o sacrifício de milhões de compatriotas que têm de se arriscar nas ruas, tentando driblar o covid-19, para que a fome não realize o mesmo objetivo da pandemia.

Nenhum deles tem superpoderes. Nenhum pensa ser o Homem de Aço ou a Mulher Maravilha. São só brasileiros. E, como tal, têm todo o direito de esperar que seu presidente, antes de tentar vencer o concurso de Macho Universo, os trate com o mínimo de respeito. É uma questão de bom senso. E humanitária.

Eu, cá na minha insignificância, continuo acreditando “nas flores vencendo canhões”. Ou será que gostar de poesia também é coisa de boiola?


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