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ESTADÃO – Motoristas buzinam impacientemente em meio a um gigantesco engarrafamento, enquanto em um ponto de ônibus, pessoas trocam empurrões e cotoveladas para conseguir entrar em um coletivo lotado, um dos poucos que circulam por Paris, afetada por uma greve no transporte público que dura oito dias e faz da locomoção pela capital francesa uma verdadeira odisseia.

“Não me empurre, senão eu vou bater em você!”, adverte Evelyne Bonfill numa plataforma na Gare du Nord, a estação ferroviária mais movimentada da capital francesa. Seu trem acabou de chegar e essa mulher de 57 anos tenta entrar no vagão, enquanto dezenas de pessoas se espremem atrás dela.

“Em um dia normal, entre minha casa e o trabalho, há uma linha direta, mas como atualmente está fechada, preciso pegar quatro trens e um ônibus”, lamenta a funcionária de um escritório.

Utilizar transporte público em Paris tornou-se um desafio diário: nove das 16 linhas de metrô estão fechadas, cinco funcionam parcialmente, mas estão saturadas e apenas duas, totalmente automatizadas, sem condutor, circulam normalmente.

Na estação de La Defense, distrito comercial de Paris, onde milhares de usuários de metrô, trens e bonde passam todos os dias, a mesma maré humana é percebida há uma semana.

Para acessar a linha 1 do metrô, uma das duas automatizadas, os usuários devem aguardar atrás de uma fita colocada pelo pessoal da estação para evitar invasões. A multidão fica impaciente, mas deixa-se guiar humildemente. “Todos poderão acessar a plataforma, mantenham a calma”, diz um funcionário.

Uma vez que ele remove a fita, alguns correm para se posicionar estrategicamente antes da chegada do trem. “Não adianta correr, eles vão se machucar”, grita o agente.

‘Todo mundo está incomodado’

Embora muitas estações estejam cheias, às vezes com brigas que vão dos insultos até troca de socos, a maioria dos usuários mantém a calma.

“As pessoas estão incomodadas porque precisam trabalhar, gritam, mas quando conseguem entrar no vagão, o clima ameniza rapidamente”, diz Alain Brun, de 53 anos. “Todo mundo sabe que há uma greve e que há grandes chances de se chegar atrasado ao trabalho”, completa.

As ruas também se transformaram numa selva. “Em cada semáforo, as pessoas pensam que estão no Tour de France e querem ser os primeiros a sair”, diz Bérengère Colas, 30 anos.

A mulher, que vai de carro do leste ao centro de Paris, também conta como é difícil dirigir em ruas cheias de bicicletas e patinetes elétricos, “muitos dos quais dirigem no meio da rua!”.

Mas as dificuldades não se limitam aos usuários de veículos de duas rodas.

“Todos os motoristas estão nervosos, mesmo às 05H00 da manhã”, diz Françoise Garel, uma enfermeira de 63 anos que usa seu carro para fazer visitas domiciliares.

Diante da greve contra uma reforma do sistema de aposentadorias, muitos também optaram por compartilhar carros. Mas para Carole, engenheira de 32 anos, “à noite, com engarrafamentos, é melhor voltar para casa a pé”.

Aqueles que podem, pegam táxis ou Uber, mas os preços dispararam. “Pagar 100 euros por uma corrida é revoltante”, diz Nabil Moussaoui, um consultor de 30 anos.

Nanaëlle Aas, 22 anos, prefere utilizar um patinete elétrico na capital francesa. Mas “às vezes é preciso andar trinta minutos para encontrar um que funcione”, reclama.

Edmée Megnin, 86 anos, não tem intenção de mudar sua rotina. Ela deixou dois ônibus cheios passarem antes de conseguir entrar em um. 

“Sinto muito por aqueles que trabalham, mas tenho um luxo que eles não têm: em minha casa, apenas meu gato está me esperando!”, diz, rindo.


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