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Juro que eu não queria mais falar de Bolsonaro. Perdoem-me a vulgaridade da expressão, mas estou de saco cheio com as bravatas e patranhas desse inconsequente que o desespero e a desinformação do povo levaram à presidência da República. Não que alguma de suas atitudes me tenha causado surpresa. Ele sempre mostrou o que é e a chefia de Estado não tem o condão de alterar a formação de ninguém. Muito menos quando se trata de alguém acostumado ao autoritarismo, com o qual revela uma intimidade de alcova. Por isso, entendo que estamos colhendo o que plantamos e, não sendo boa a safra, o recurso é torcer por clima bom e melhores insumos para que a próxima venha a contento.

Mas, se não queria, por que estou falando? Desculpem-me, é que foi demais aquele pronunciamento em cadeia nacional de televisão, no início da semana. Ditas por um amanuense de prefeitura do interior, as palavras ali pronunciadas já seriam condenáveis. Partindo do chefe da Nação, elas adquirem o feitio de um deboche monstruoso, de um achincalhe gigantesco. Bolsonaro derramou sobre os brasileiros um oceano de sandices irresponsáveis, se me permitem a redundância. O mundo inteiro se atemoriza diante de uma pandemia, mas ele, o atleta, de memoráveis conquistas olímpicas, passa ao largo porque seu físico privilegiado não se iria abater com um “resfriadozinho”.

Tomara que seja verdade. Afinal, nem mesmo ele merece sofrer os efeitos da nova e avassaladora doença, que não conhece fronteiras porque se revela universal. Se o presidente do Brasil está a ela infenso, tanto melhor. Acontece que o mesmo não se pode dizer do restante da população que, sem o recurso de músculos saudáveis e forjados em academias, está acuada diante da ousadia da moléstia e de seus efeitos comprovadamente devastadores.

Como é possível que esse homem não se sensibilize diante do sofrimento e da angústia dos seus mais de duzentos milhões de compatriotas? Não sei e acredito não haver resposta racional para a indagação. A fala presidencial me provocou um choque que jamais havia experimentado. Incredulidade, a princípio. Depois, o estarrecimento puro e simples, arrasado pela evidência de que o Presidente do meu país estava aconselhando seu a povo a fazer exatamente o contrário daquilo que os maiores cientistas do mundo recomendam. É demais para quem está há mais de um decêndio sem dar as caras na rua, confinado em casa, por acreditar que essa é a contribuição mínima que posso dar, até como manifestação de solidariedade com meus iguais.

Não vejo nem abraço filhos ou netos. Assim também estão sofrendo todos os velhos deste país e do resto do mundo. Mas Bolsonaro nos menospreza, tem como bagatela que soframos restrições inquisitoriais. É um curioso paradoxo. Ele, que nunca manifestou respeito pela liberdade alheia na ditadura, agora se revela contra o aprisionamento ditado pela inclemência do vírus. Que paladino da liberdade às avessas fomos encontrar!

O ator Lima Duarte, com a autoridade de seus noventa anos, bem resumiu o sentimento dos velhos: “O discurso dele é uma coisa trágica para mim. Ele quer dizer: deixe o velho morrer. Os jovens estão bem, os meninos estão bem, então, deixa o velho morrer. Ele quer salvar a economia a murros, a facadas, a tiros. Ele só quer o confronto. Conforme ele ia falando, eu pensava: ih, ele está falando comigo. Ele quer que eu morra! É isso que ele está dizendo para mim e para todos os velhos desse país, que velho não importa. Difícil, né?”

Mas vai passar. Estou levando meu isolamento com a música de Mozart, os livros de Machado e até um bingo pelo computador. São excelentes companhias e em nada podem ameaçar minha sanidade mental. Não sei, porém, se resistirei a uma nova investida do atleta presidencial. Com o vigor físico que alardeia possuir, é muito provável que esteja ele a arquitetar um novo pronunciamento em que, por certo, vai deixar demonstrado que a pandemia é obra de ficção.

Confesso que, mesmo partindo dele, eu gostaria de que fosse verdadeira essa versão. Como isso é impossível, entretanto, o jeito é já começar a tentar que não se alastre uma nova epidemia: a do bolsona vírus. Esta, com certeza, em chegando ao nível pandêmico, vai nos deixar a todos debilitados mentalmente, impregnados de ódio e estupidez contra a própria humanidade. Diante dela, o corona vírus de fato é fichinha. Tomara que a Organização Mundial de Saúde consiga novos mecanismos de proteção. É uma questão de salvação mundial. Fosse eu um crédulo e estaria a implorar, numa prece muito conspícua e ardorosa: Livrai-nos do bolsona vírus.


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