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Como estou viajando, não tenho tido de tempo de pesquisar e escrever. Por isso recorro aos arquivos, em busca de algo que, mesmo passado algum tempo, ainda tenha alguma serventia nos dias de hoje. Pareceu-me que nessa categoria se enquadra o texto que abaixo transcrevo, criado em 2011 e publicado com o mesmo título de agora. Leiam-no os que tiverem paciência:  

“Segundo a UNESCO, existem oitocentos milhões de analfabetos no planeta. Como Houaiss e Aurélio são concordes em que o termo diz respeito à pessoa que “não conhece (desconhece) o alfabeto” ou que “não sabe ler e (nem) escrever”, impõe-se a triste conclusão de que quase um bilhão de seres humanos estão impedidos de obter uma visão minimamente correta do universo em que vivem. E, sem esse conhecimento, de transformá-lo com o intuito de conseguir melhores condições de vida.

A quem pode interessar a manutenção de um quadro dessa ordem? Se houvesse uma eleição, minha primeira opção de voto seria para os fazedores de guerras, incluídos na categoria os governantes irresponsáveis e toda a malta da indústria bélica que, insaciável, não pode prescindir da perspectiva de que, em algum lugar e a qualquer hora, haja alguém disposto a tirar a vida de seus semelhantes, sejam eles soldados ou simplesmente mulheres, velhos e crianças.

Depois, olharia para os que se locupletam do trabalho alheio, vivendo à tripa forra com o vil produto da especulação financeira. Que interesse podem ter eles em que a maioria venha a compreender que dinheiro sozinho não tem condições de parir mais dinheiro? Já ouço ao longe o eco das severas repreensões.” É incorrigível esse tal de Valois”. E sou mesmo porque, por mais que me esforce, não me é dado alcançar uma razão que seja para a minoria desfrutar de benesses que chegam ao esbanjamento do luxo mais supérfluo, enquanto a maioria consegue apenas sobreviver com o mínimo de dignidade. E olhe lá!

Dos oitocentos milhões detectados pelas Nações Unidas, a notícia que me chegou às mãos não informa quantos estão radicados no Brasil, nem, muito menos, quantos pululam em nossos parlamentos e nos postos de mando executivos e judiciários deste imenso país, onde a mania de haver mais caciques do que índios parece ser um defeito de difícil reparação.

Seria conveniente (mas, contraditório, é claro) que as autoridades pudessem regionalizar os dados já obtidos. Talvez com isso pudéssemos vir a entender o que levou um deputado das Minas Gerais a apresentar um projeto de lei obrigando à “criação de cartão de identificação para transexuais e travestis junto ao SUS”, devendo constar “o nome feminino adotado pela pessoa, a data de nascimento, dados da carteira de identidade original e uma foto atualizada, em trajes de gala”. Neste último caso, o infeliz há de querer exibir para a plebe ignara seus luxuosos e parisienses modelos, recobertos de plumas e paetês.

Poderíamos também chegar a entender outro projeto, este na Câmara Federal, segundo o qual um gênio da raça propõe que os presidiários, condenados a penas de 30 anos de reclusão ou superiores, sejam obrigados a doar um dos órgãos duplos (pulmão, rim ou córnea), além da medula ou um terço do fígado, para os necessitados de transplante. Se fosse prevista, também, a doação de parte do cérebro, o autor da proposta, mesmo condenado a mil anos, podia ficar tranquilo que ninguém iria querer receber a sua inutilidade.

Como os autores dessas duas pérolas devem saber ler e escrever, já se vê que, para eles, só aplicando a outra definição de Houaiss, segundo a qual analfabeto também é alguém “que é muito ignorante, bronco, de raciocínio difícil”.

Acho que não exagero se disser que a situação não melhorou muito. Ao contrário, cuido que, ao longo desses oito anos, o número de analfabetos deve ter superado a casa do bilhão e espraiado os tentáculos de suas consequências por “mares nunca dantes navegados”. Basta ver que, no Brasil, o primeiro filho defende com ardor a ideia de que o país deve entrar na corrida nuclear, fabricando suas próprias bombas atômicas. O pai, por sua vez, não consegue ter respeito pelo cargo que ocupa. Não é, com efeito, uma postura republicana chamar de “idiotas úteis” os que protestaram contra os cortes feitos na educação. Idiotice, na verdade, é não conseguir compreender a importância da educação para qualquer povo. Estou tentado a dizê-lo, mas não vou dizer “eu avisei”.


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