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Folha de S.Paulo – Esqueça os equipamentos mirabolantes do agente secreto James Bond. Hoje, a principal arma de espionagem é o smartphone, o computador ou o tablet em que você pode estar lendo este texto.

Parece obra de ficção, mas não é. Se hoje sabemos que nossas comunicações digitais são monitoradas a todo instante, isso se deve, em parte, ao esforço de Edward Snowden, ex-agente da NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA) que veio a público em 2013 para delatar um sistema de vigilância em massa que ele ajudou a montar.

Os detalhes do escândalo que mudou para sempre a relação com a tecnologia ocupam as páginas de “Eterna Vigilância”, recém-publicada autobiografia de Snowden.

“Nas profundezas de um túnel sob uma plantação de abacaxis […] eu me sentava diante de um terminal do qual tinha acesso praticamente ilimitado às comunicações de quase todos os homens, mulheres e crianças da Terra”, conta Snowden na obra, sobre o tempo em que trabalhou em uma base secreta no Havaí.

Nascido em 1983, Snowden pertence à geração moldada pela proliferação da internet. No livro, ele lamenta que o anonimato on-line tenha sido substituído pela perda quase completa de privacidade. É nesse abismo entre o sonho do que a internet poderia ter sido e o pesadelo em que se tornou que reside a frustação de Snowden.

As informações reveladas por ele mostram como o governo dos Estados Unidos, sob a justificativa de combater seus inimigos após o 11 de Setembro, criou um vasto sistema de coleta de dados.
Snowden segue exilado na Rússia, sem saber se e quando poderá voltar ao país de origem. Longe de reconhecer qualquer interesse público que tenha motivado sua delação, os EUA continuam tratando-o como um traidor que colocou a segurança da nação em risco.

Lançado na terça (17), “Eterna Vigilância” já provocou reações das autoridades americanas. O Departamento de Justiça entrou, no mesmo dia, com uma ação para reter os lucros que resultem da publicação —para o governo, Snowden violou regras da CIA e da NSA, que exigem que seus ex-funcionários submetam suas obras à revisão prévia.

O livro é particularmente interessante para o público brasileiro: entre as revelações de Snowden estava a de que o governo americano rastreava comunicações da então presidente Dilma Rousseff.

A obra atravessa questões debatidas hoje no país, dos riscos representados por autoridades que violam prerrogativas legais à legitimidade das ações de hackers e jornalistas que expõem essas violações em prol do interesse público.

Considere-se Snowden herói ou traidor, “Eterna Vigilância” é fundamental para compreender o potencial criativo e destrutivo das novas tecnologias de comunicação.


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