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Folha de S.Paulo – A imagem da bandeira colonial colocada dentro do Parlamento de Hong Kong na invasão realizada por manifestantes no dia 1º de julho tem sido combustível para interpretações duvidosas.

Essa bandeira aparece com frequência em protestos pró democracia em Hong Kong, como o que acontece todos os anos no aniversário do retorno do território ao domínio chinês.

A presença isolada da bandeira nessas marchas é vastamente documentada —não se trata de um novo fenômeno ou algo surpreendente. Seu uso em ações “radicais” e simbólicas vem sendo debatido no principal fórum de organização dos protestos, o LIHKG.

Parte dos manifestantes aposta em buscar no Ocidente solidariedade para o movimento, como uma maneira de pressionar o governo chinês. Online, eles já financiaram campanhas para publicar uma carta em jornais estrangeiros e produzem material informativo em diversas línguas, incluindo português.

Alguns, como o estudante de 18 anos que desdobrou uma bandeira americana da mochila no protesto da última sexta-feira (16) em Charter Garden, no centro financeiro de Hong Kong, acham que Estados Unidos e Inglaterra virão “salvar Hong Kong” de se tornar uma cidade chinesa “como as outras”. A bandeira americana simbolizava a “liberdade e a democracia” que o jovem almeja para o território. Ele estava sozinho.

Figura conhecida nos protestos, a vovó Wong, como é chamada, também sempre caminha levando a bandeira do Reino Unido e dá entrevistas para a imprensa estrangeira.

O protesto de massa não tem líder. Além de inocentes e loucos, reúne oportunistas, minorias e mensagens contraditórias, mas de forma majoritária se organiza em torno da pauta conservadora de proteção da Lei Básica —a Constituição de Hong Kong— , e do status de autonomia do território chinês.

A bandeira colonial é usada regularmente por grupos localistas, que rejeitam a interferência chinesa, mas que não buscam a independência total. O Movimento de Autonomia de Hong Kong, cuja página no Facebook mal ultrapassa mil pessoas, adotou o brasão da era colonial como seu logotipo.

O Partido Independente de Hong Kong, uma organização criada por honcongueses expatriados vivendo na Europa, também usa a bandeira colonial.

Mesma escolha foi feita pela Campanha de Reunificação do Reino-Unido com Hong Kong, uma página do Facebook com pouco mais de 13 mil pessoas. Essa é uma pauta claramente minoritária, enquanto a também minoritária agenda da independência do território reúne mais sérios e numerosos simpatizantes, em especial entre os mais jovens.

Poucos defendem de fato o retorno ao domínio britânico, como um senhor de 51 anos que entrevistei no protesto de 21 de julho em Wanchai e que encontrei em diversas outras marchas. Lihang Ang sobe em grades empunhando a bandeira colonial, é alvo fácil de fotógrafos e uma estrela de selfies com jovens manifestantes que saem rindo.

Outros se irritam e pedem que ele retire a bandeira e o acusam de boicotar o movimento. Um personagem bastante visível. Existem outros, mas são poucos e quase sempre os mesmos.

Para Ang, antes era melhor, embora Hong Kong não tenha vivido uma democracia nos tempos de colônia. Governadores eram nomeados por Londres; foi apenas em 1991 que Hong Kong teve a primeira eleição legislativa direta.

O que Hong Kong perdeu nas últimas décadas foi a relevância econômica em relação à China. A vida no território tem se tornado mais difícil, enquanto melhora no continente. Para os honcongueses, tudo está cada vez mais caro e a desigualdade social se acirra.

O uso da bandeira é visto ao mesmo tempo como uma forma de desafiar a China e irritar dirigentes locais, além de ser uma dose de romantização do passado ou desconhecimento, uma vez que boa parte dos que levam a bandeira não são velhos o bastante para terem vivido na Hong Kong colonial.


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