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Coloquei lado a lado as fotos de madame Macron e da senhora Bolsonaro e pedi à Heleninha que apontasse a mais bonita. Sem qualquer vacilo, a criança levou o dedo em direção à brasileira, opinião imediatamente corroborada por sua irmã mais nova, a Catarina. Mas a veio a pergunta embaraçosa e que eu temia: “Vovô, é concurso de miss?” Disse que não. No íntimo, entretanto, fiquei torcendo para que a imaginação infantil tivesse razão, tamanha é a futilidade do imbróglio em que se envolveu o nosso presidente, fruto de uma incontinência verbal de todo em todo inadequada.

No epicentro do furacão, a questão da Amazônia. Não consigo atinar com os motivos que levaram ao pandemônio criado nas últimas semanas, porque, aqui na minha santa ignorância, tenho como perfeitamente possível destacar os termos da equação e estabelecer uma solução racional. Vejamos.

É para queimar a floresta? Até o senhor Travassos, aquele personagem bisonho de que já me ocupei algumas vezes, responderia com um sonoro e definitivo “não”. Aliás, o nosso grande poeta Emerson Maia, ainda que manifestando sua preferência pelo “contrário”, já proclamou em toada memorável: “Vamos brincar de boi, está garantido; matar a mata não é permitido”.

Outra coisa: é para internacionalizar a Amazônia? Aqui, não é preciso ter mais que um neurônio para formular a resposta negativa. Nenhum país abre mão da sua soberania, sendo certo que a ofensa a esse princípio mais que velho do direito internacional já foi causa de inúmeras guerras.

Pois muito que bem. Tudo isso visto e examinado, pergunto eu: é necessário baixar o nível das conversas para tratar de questões tão óbvias? Fio que não, até porque firmeza não é sinônimo de grosseria, assim como patriotismo não tem nada a ver com fanfarronice. Toda gente sabe que “ninguém é uma ilha”, o que parece ser a pedra de toque da conclusão de que o homem é um animal social. Dá-se que, se nas relações interpessoais é imprescindível que se preservem o respeito e a lhaneza para com os outros, tais exigências estão igualmente presentes nas relações internacionais, funcionando como meios para o diálogo e a busca de soluções pacíficas.

O presidente Bolsonaro parece não pensar assim. O Brasil, para ele, só por força da soberania, está desobrigado de compreender o processo de globalização e deve tratar a ferro e a fogo todo aquele que “ousar” discutir algo que diga respeito ao nosso país. Mas como é que isso pode dar certo? Eu não sei e já ouvi pessoas muito mais lúcidas e cultas do que eu clamarem por uma sessão espírita em que seja possível trazer de volta as figuras do Barão do Rio Branco e de Joaquim Nabuco. Talvez seus ectoplasmas conseguissem devolver aos trilhos a diplomacia brasileira.

Não posso me furtar de citar a reflexão do jornalista Ancelmo Góis, publicada em O Globo desta quinta-feira. Diz ele: “República dos toscos. Veja se eu entendi. No nacionalismo saci-pererê de Bolsonaro, Alemanha, França e Noruega são lobos maus e os EUA, chapeuzinho vermelho. Ah, bom!” Perfeito. No delírio bolsonarista, o império do norte é o grande irmão, a velar diuturnamente pelos que, por idiotice ou ignorância (ou pelas duas), lhe rendem vassalagem. Até parece.

Não me soa muito difícil compreender que a Amazônia interessar ao mundo todo é um fato. Nada mais do que isso: um fato. E quem o estabeleceu foi nada menos que a ciência, a demonstrar que preservar a região é fundamental para todos os seres viventes do planeta. Ora, se assim é, não pode causar estranheza que se queira contribuir para alcançar esse objetivo. Já ouço o protesto: você é tão ingênuo assim, a ponto de acreditar que essa oferta de ajuda financeira não mascara interesses escusos? Não nasci ontem e claro que não descarto a hipótese. O mais irônico, entretanto, é que precisamente os Estado Unidos são, desde tempos imemoriais, tidos e havidos como o principal vilão nessa história de cobiça internacional, mas, contra eles, o bolsonarismo é só subserviência.

Ademais, quem quiser ajudar, que ajude. Cabe a nós, aí sim, estabelecer os limites dessa colaboração, observando regras que façam morrer no nascedouro qualquer tentativa, mesmo velada, de intromissão em nossos assuntos internos e na apropriação indevida de nossas riquezas.

Tudo uma questão de bom senso. Assim como o é essa coisa da lei do abuso de autoridade. Quem tem autoridade não pode abusar dela. Mas isso é assunto para outro texto. Por enquanto eu me contentaria com uma lei contra o abuso de burrice. Está demais.


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