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Por David Almeida – Especial – Raymond de Sá, artista plástico, Brasiliense radicado em Manaus, há mais de 35 anos, portanto, com uma vivencia e tanto por essas bandas e, como se diz no linguajar Baré, “já comeu jaraqui nunca mais sai daqui.” É claro, que com essa vivencia toda venha absorver naturalmente o tema amazônico como estrutura essencial para produção e realização do seu trabalho.

O artista depois de várias exposições, em galerias de Manaus e outras praças, na busca de mostrar seu trabalho, resolveu deixar a cidade grande com intuito de fazer sua arte para os cidadãos que vivem por entre rios, vilarejos e cidades do interior.

Como ele mesmo diz: “sempre é natural, que eu tenha na essência do que faço temas amazônicos, são assuntos da estrutura do meu trabalho.”

Desde 20 de dezembro de 2019, Raymond e sua arte plástica encontraram sua moldura, na exuberante natureza do Rio Juruá, município de Carauari, distante, 700 km, de Manaus.

Assim que chegou entrou logo em contato com os moradores do lugar: pescadores, caçadores, coletores decopaíba, andiroba; de frutas como açaí, cupuaçu, buriti, pessoas que vivem diretamente daquele sistema de extrativismo.  Queria sentir, ouvir suas lendas, suas estórias, curtir seus personagens para depois passar a ser, também, um deles;produzir arte por eles, mostrar nas paredes, nos tetos de suas simples casas a alegria estampada e colorida de suas estórias.

“Pintar, desenhar ao ar livre, tendo uma plateia atenta à cada movimento das mãos é diferente: é como estar num teatro representando numa peça”, enfatiza Raymond.

As pessoas;os adultos, as crianças, sempre chegam perto quando ele começa pintar algum painel e, cada um na sua sequência quer interferir com seus contos: os idosos, os adultos, contando suas lendas; o dia-a-dia do seu mundo. As crianças, meio assim, com a mão na boca, desconfiados, mas curiosos. Muitas coisas, muitos segredos da Amazônia, alguns, se aproximam meios ressabiados, sem saber o que é aquela pintura, mas, no entanto, sentem que é algo pertencente ao seu mundo muito mais do que rola na cabeça do artista. Não entendem, porque uma pessoa chega, vindo de tão longe, e começa a desenhar painéis nas casas, mas mesmo assim, cedem seus espaços, cedem seus momentos de atenção à espera do inusitado; suas lendas suas estórias, agora vão estar ao alcance dos seus olhos na tela colorida, das paredes de suas simples casas.

Pra poder fazer isso, Raymond, paralelamente, faz um trabalho comercial nas lojas, nos supermercados, ferragens para poder se sustentar, ter um ganho, e, com as sobras das tintas; bisnagas, pinceis, rolos ele leva para uma casa de um pescador, agricultor ou morador do lugar e faz sua arte.

“Para as crianças tudo é festa, elas me ajudam também, a pintar algum pedaço, todo mundo fica muito encantado com esse trabalho.Modéstia parte, é um trabalho bonito; é direto com as pessoas diferente daqueles que a gente faz, trancado na solidão do ateliê, ignorando o mundo a volta”, feliz, comenta o artista.

Realmente, o trabalho num ateliê, vai pra galeria ou pra uma discussão mais profunda da obra, e fica tudo retido à um pequeno grupo de pessoas. Nesse trabalho ao ar livre, proposto por Raymond, há uma interação muito importante, a coisa se amplia, porque quem passa de bicicleta, ou andando a cavalo, ou de qualquer jeito, para, pra observar e acaba entrando no jogodando suas opiniões, participando, e, acaba fazendo parte do contexto da cidade, da urbanística.

Conta Raymond, que algumas pinturas – e, isso é fato –  já estão virando referência na cidade.Só como exemplo: muitos porlá, já conhecem o senhor João Galo, morador de uma casa azul, na rua do Gavião, simplesmente, por uma ilustração pintada na parede, da sua casa, aonde uma flor amarela se destaca no azul. Agora, todos falam: que naquela casa azul, com uma flor amarela pintada na parede, mora o Sr. João Galo, e, isso é sensacional pro artista.

Essa interação se faz necessária, há muito interesse, há muita cobiça internacional por esse paraíso verde e sempre sobre a capa do disfarce de um interesse ecológico. A frase, que a “Amazônia é do mundo” é um exagero.É, sim, mas, principalmente do homem amazônico, enquanto isso, ele é exprimido no seu pedaço de chão, é subtraído do que realmente é seu. Essa interação com o artista, através da arte é de uma importância muito grande, pois, faz com que, de uma certa forma, o ser “caboco,” saia do isolamento, sendo mostrado para o mundo através de uma pintura,emoldurada pela parede da sua casa, partindo do princípio, que tudo tem um começo.Esse patrimônio, sim, precisa ser preservado para o mundo, para as futuras gerações, com todos os direitos, pro bem desse “Planeta, Ainda, Azul.”

“Eu nunca ouvir falar do interesse em manter as populações na floresta Amazônica, pelo contrário eles fazem tudo para surrupiar as terras, justamente, ignorando ou dificultando a vida dessas pessoas, para que elas sigam para os grandes centros e abandonem seus rios, seus lagos, suas várzeas, seus campos de floresta, e tudo isso fica à mercê de quem chegar primeiro e adquirir mais facilmente a terra”. Incomodado com tudo isso, Raymond, afirma, que no Rio Juruá se observa muito isso, terras extensas abandonadas, mas já com uma plaquinha, justificando que é uma área de reserva ecológica, quando na verdade, não é. Você observa a existência de muitos gringos, muitos estrangeiros por lá e ele acha que tudo isso é muito suspeito”.

O trabalho feito nas paredes das casas dessa gente tem surpreendido o artista, pelo fato de que, as pessoas começaram a falar mais ainda das suas atividades, das lendas como se fosse uma interação daquilo que elas pretendem mostrar, para que outras pessoas de outros lugares possam saber como eles vivem, de ver nas obras uma possibilidade de avivar suas existências de uma forma lúdica.

“O meu foco é um dia, poder levar todo esse material, ao poder público, para que possa ser financiado uma viagem maior, mais ampla, por outros municípios em outros rios realizando, assim um projeto pessoal; um sonho que eu tenho, que é espalhar mais, não só o meu trabalho, mas à quem interessar, deixar registrado essas histórias da Amazônia o máximo possível, pra gerações futuras.


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