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Por meses, Reese Monson, que ajuda a organizar a segurança das centenas de manifestantes que se reúnem todas as noites no centro de Portland, em Oregon, aconselhava-os a usar escudos feitos de compensados de madeira, macarrão de piscina e tambores de 100 litros – ferramentas para defender as pessoas das táticas de controle de tumultos usadas pela polícia.

Agora, Monson disse que os manifestantes estão pensando em utilizar um novo tipo de escudo nos protestos contra a injustiça racial: coletes à prova de balas. “Qualquer armadura que você puder arranjar será necessária”, disse. “Precisamos de tudo o que você conseguir usar para se proteger. Estamos num momento de vida ou morte agora”.

Durante meses, enquanto os protestos do Black Lives Matter e de outros grupos irrompiam em todo o país, os confrontos persistentes se deram, em grande parte, entre os manifestantes e a polícia, com paus, pedras e bombas de gás lacrimogêneo. Mas, nos últimos dias, os protestos em Portland e em Kenosha, no Wisconsin, tomaram um rumo mais perigoso: chegaram os ativistas de direita, empenhados em debelar os protestos por justiça racial com uma perspectiva oposta.

Violentos confrontos de rua entre os dois lados estouraram nas últimas duas semanas, deixando três pessoas mortas. A chegada das armas de fogo empurrou o debate político sobre o policiamento para um território novo e precário. O presidente Donald Trump, que visitou Kenosha na terça, alerta que as cidades americanas estão fora de controle. Já o prefeito de Portland culpa o presidente por fomentar a agitação.

Três meses depois que George Floyd foi morto pela polícia de Minneapolis, motivando protestos por todo o país, dois movimentos opostos estão se enfrentando nas ruas sem nenhum sinal de recuo. Enquanto isso, o país inicia a reta final das eleições de 3 de novembro.

Depois que a tentativa do governo Trump de reprimir os protestos em Portland saiu pela culatra em julho, o mês passado trouxe uma nova reviravolta. A polícia de Kenosha atirou em um homem negro, Jacob Blake, pelas costas, o que incitou manifestações na cidade e em outros lugares. Foi então que grupos de direita entraram em Portland para confrontar os manifestantes do Black Lives Matter.

Na semana passada, em Kenosha, Kyle Rittenhouse, 17 anos, do estado de Illinois, foi ao local dos protestos dizendo que estava ali para proteger os estabelecimentos comerciais. Antes que a noite acabasse, duas pessoas foram mortas a tiros. Os advogados de Rittenhouse, que foi acusado dos homicídios, disseram que o adolescente agiu em legítima defesa.

Então, na noite de sábado, em Portland, um membro do grupo de direita Patriot Prayer (oração patriota, em tradução livre) foi morto a tiros no que parece ter sido um confronto que aconteceu do lado de fora de um estacionamento. O caso aconteceu depois que uma caravana de apoiadores de Trump passou por um mar de manifestantes por justiça racial.

Os ativistas de direita dizem que estão protegendo a propriedade privada, protestando contra a incompetência das autoridades municipais para conter as manifestações e oferecendo apoio à polícia. Mas Cassie Miller, analista de pesquisa sênior do Southern Poverty Law Center, vê o perigo: “A extrema direita agora está se ungindo como a única força entre a ordem e o caos, um passo perigoso que pode normalizar a violência política da qual eles já detêm o monopólio”.

Um agente das forças de segurança federais, que não quis ser identificado porque não tinha autorização para falar sobre o assunto, disse que os grupos de direita não parecem ter um conjunto claro de objetivos. “Para muitos desses caras, a atenção é o fim do jogo”, disse o agente, que acrescentou que o mesmo parecia valer para muitos manifestantes antifa de linha dura.

“Se você se sentasse com esses caras e perguntasse: ‘Quais são os objetivos das políticas públicas que vocês gostariam de ver na prática?’, eles não iriam querer nada disso, porque tem muita coisa em jogo nessas horas, como ter sua voz ouvida nesses ambientes e validar sua opinião para outros seguidores”.

Lauryn Cross, organizador da Aliança de Milwaukee contra o Racismo e a Repressão Política, disse que os manifestantes agora têm de se preparar de maneira diferente por causa da crescente ameaça dos ativistas de direita. Agora eles precisam planejar melhor a segurança, analisando mais de perto as rotas que pretendem percorrer e avaliando as áreas antes dos eventos.

Os manifestantes em Portland também estão reavaliando suas práticas. Monson disse que eles começaram a usar veículos para proteger a frente e a retaguarda das marchas de protesto. Os manifestantes também estão se valendo de vigias e palavras em código para alertar uns aos outros quando identificam potenciais invasores.

Muitos ficam preocupados com os veículos acelerando os motores e os rostos desconhecidos na multidão. E alguns estão começando a trazer armas: a polícia de Portland informou que dois dos 29 manifestantes presos em uma manifestação na noite de domingo portavam pistolas.

O prefeito de Portland, Ted Wheeler, pediu calma e fez um apelo ao presidente para que trabalhassem juntos com o objetivo de diminuir as tensões. Mas, no mesmo instante em que Wheeler fazia o pedido durante uma entrevista coletiva, Trump já estava atirando de volta no Twitter, chamando o prefeito de “idiota” e sugerindo que o governo federal poderia enviar forças para a cidade.

Os apoiadores do Trump estão organizando mais um evento em Portland para o próximo fim de semana. Fora da cidade, um grupo nacional antigoverno convocou uma guerra civil aberta, dizendo que, se Trump não interviesse em Portland, a milícia o faria.

Críticas à polícia

Tanto em Kenosha quanto em Portland, a polícia enfrentou críticas por fazer pouco para evitar o derramamento de sangue durante os confrontos. No sábado, a polícia sabia que uma caravana de apoiadores de Trump passaria pela cidade, mas não se fez presente nos conflitos que eclodiram em diversos quarteirões, com brigas estourando pelas ruas.

E, em Kenosha, na semana passada, viaturas da polícia passaram por um grupo de autoproclamados milicianos, distribuindo água e agradecendo sua presença ali. O chefe da polícia de Portland, Chuck Lovell, explicou que não tinha recursos para apartar os grupos oponentes; quando questionado, disse que seus policiais teriam poucos meios para evitar um tiroteio completo se ambos os lados aparecessem fortemente armados.

“Espero que não chegue a esse ponto”, disse ele. David Beth, xerife do condado de Kenosha, em uma entrevista na segunda-feira, criticou os policiais que agradeceram aos milicianos. “Eles erraram feio ao dizer aquelas coisas”, disse ele.

O confronto em Kenosha começou quando um grupo de milicianos armados apareceu com a vaga justificativa de proteger a cidade. Um desses homens que apareceram no Civic Center Park foi Aaron Petroski, de 38 anos. Ele ficou em canto do parque, vestido roupas camufladas e carregando um rifle.

Ele disse que atendera à convocação de um grupo de Facebook chamado “Cidadãos Armados para Proteger Nossas Vidas e Propriedades”, um grupo criado naquele mesmo dia. No início da noite de terça, mais de cinco mil pessoas já haviam entrado para essa comunidade online.

Petroski disse que estava lá para intervir porque a polícia fracassara na noite anterior, quando saques e incêndios devastaram Kenosha. “Não estou aqui para me opor aos protestos, nem silenciar o direito de qualquer pessoa se manifestar, de forma alguma”, disse ele sobre os protestos do Black Lives Matter. “Eu pessoalmente acredito que o movimento BLM foi sequestrado por pessoas que praticam violência”.

Depois que os policiais expulsaram os manifestantes do parque com bombas de gás lacrimogêneo, as pessoas remanescentes começaram a se dirigir para uma rua vazia repleta de lojas e casas. Foi uma mistura volátil: manifestantes se depararam com homens predominantemente brancos e armados com rifles, empurrando uns aos outros e gritando. Horas depois, dois manifestantes foram mortos durante uma briga.

David Beth disse que a presença da autodenominada milícia agravou os confrontos e complicou a situação. “Como agente da lei, você não sabe quem são os envolvidos. E isto aumenta a tensão, piora o conflito e eleva o nível dos confrontos”.

Portland testemunhou três fins de semana consecutivos de conflito direto entre os grupos. Em 15 de agosto, um evento organizado por organizações de direita terminou com um ativista disparando tiros de dentro de um veículo, segundo as autoridades. Em um evento semelhante em 22 de agosto, viu-se uma outra pessoa brandindo uma arma.

A situação em Portland na noite de sábado era igualmente caótica. Apoiadores de Trump passavam em caminhonetes pelo centro da cidade e atiravam bolas de tinta da parte de trás da carroceria; os manifestantes respondiam jogando objetos nos veículos.

Um vídeo mostra que, conforme a noite avançava, Aaron J. Danielson, o homem que foi mortalmente baleado, morador de Portland que apoiava o grupo de extrema direita Patriot Prayer, estava passando por uma rua quase vazia perto dos protestos. Em outro vídeo, uma pessoa grita: “Tem alguns bem aqui”.

Justin Dunlap, morador de Portland que estava transmitindo o vídeo da situação ao vivo, disse em uma entrevista que Danielson parece ter puxado alguma coisa da cintura, como se estivesse sacando uma arma, mas também poderia ser um taco. Uma nuvem de fumaça emergiu na frente de Danielson quando dois tiros soaram. As autoridades disseram que ele morreu por causa de um tiro no peito. (Estadão)


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