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Se alguma vez alguém me perguntar como eu vejo o Governo Bolsonaro eu responderei que ele pode ser “explicado” por três pontos: primeiro, primitivismo religioso; segundo, primado do sentimentalismo; terceiro, ódio à razão. E nessa tríade sinto-me muito à vontade para explicar cada um desses pontos até porque o material é farto, daria mesmo para escrever uma dissertação ou uma tese, mas não é aqui o local e o momento ideal para tal empreendimento intelectual. Por ora, tratemos de explicar, resumidamente, cada um desses tópicos: primitivismo religioso, primado do sentimentalismo, ódio à razão.

Primitivismo religioso. Para escolher dentre as várias referências que confirmam essa tese, analisemos apenas os casos do Pastor Magno Malta e da ministra Damaris Alves. O primeiro teve papel importante na campanha vitoriosa do presidente. Ele era o encarregado de fazer as “orações” ao vivo pelas Redes Sociais, passando “credibilidade” aos seus eleitores de que o presidente era um homem “religioso”. Com efeito, dentro do “primitivismo religioso” não basta “ser religioso”, tem que “parecer religioso”. Com isso, entra em cena a ministra Damaris Alves. Essa assume o “lugar” do Pastor Magno Malta e começa a exercer forte influência sobre o Presidente, chegando a dizer que “Menino veste azul e menina veste rosa”. Assim, o presidente Bolsonaro perde-se na condução do país e passa a “governar” apenas para os seus eleitores, majoritariamente o povo evangélico, chegando a dizer que colocaria no Supremo Tribunal Federal um ministro “terrivelmente evangélico”.

Primado do sentimentalismo. É impressionante observar o “descontrole emocional” do presidente Jair Bolsonaro diante de situações limite. Por exemplo, toda vez que um repórter lhe faz uma pergunta, ele se irrita, fica nervoso e vermelho como um comunista. Nem parece um ex-militar. Os profissionais da impressa, especialmente os repórteres, já perceberam isso. Imagine você, caro leitor, que um repórter lhe perguntou se ele tinha citado a Polícia Federal no caso do ex-ministro Sérgio Moro, e ele respondeu: “Eu falei PF, não Polícia Federal”. Ora, nesse país de péssima educação, até um aluno do sexto ano do Ensino Fundamental sabe que “PF” significa “Polícia Federal”. Eu poderia citar milhares de outros casos, mas para não ficar muito longo, e eu sei que ninguém gosta de texto muito comprido, vou apenas citar a última frase dele sobre o Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia: “Voltamos a namorar”.

Ódio à razão. Desde o primeiro dia de Governo, o presidente Jair Bolsonaro vem demostrando total desprezo pela razão. E novamente, nessa tese, temos as mais abundantes referências. A primeira delas é quando, em primeiro de janeiro de dois mil e dezoito, no seu discurso de posse, afirmou que: “O Brasil voltará a ser um país livre das amaras ideológicas”. Ora, não quero ser indelicado com o Presidente, não é de minha formação, até porque, também, já escrevi bastante sobre esse assunto, mas ele deveria saber que ideologia não se acaba, apenas se substitui. Sai a ideologia de quem perdeu a eleição e entra a ideologia de quem ganhou. É assim que funciona à democracia. A segunda referência, como não poderia deixar de ser, por ser a mais atual, é sobre a pandemia de Covid-19. Nesse assunto, o Presidente é um desastre total, tanto na condução da crise em si, como na liderança política da Nação. Não obstante, ele iniciou uma disputa insana, de um lado, os profissionais da saúde, os médicos, os especialistas; do outro, os apoiadores da irracionalidade, os mesmos que parodiam a música do Palhaço Tiririca: “Cloroquina, cloroquina, cloroquina lá do SUS, eu sei que tu me curas, em nome de Jesus”. E no meio de tudo isso está a população humilde, desassistida, necessitada de todo tipo de ajuda e largada à própria sorte. Nesse cenário de “ódio à razão”, dois ministros já caíram, assim como cairá o terceiro, o quarto, o quinto…, enfim, todos aqueles que não concordarem com o Presidente de que a hidroxidocloroquina “salva”.

Luís Lemos

Filósofo, professor universitário e palestrante. Autor dos livros: O primeiro olhar – A filosofia em contos amazônicos (2011), O homem religioso – A jornada do ser humano em busca de Deus (2016); Jesus e Ajuricaba na Terra das Amazonas: Histórias do Universo Amazônico (2019). E-mail: [email protected] | Youtube: https://www.youtube.com/channel/UC94twozt0uRyw9o63PUpJHg


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