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Mandetta não é um herói, mas Bolsonaro é um inconsequente. Acho branda a palavra. Deixemo-la aí, porem. A qualificação é irrelevante; importa é a compreensão geral do quadro. O país está acossado pelo medo; o isolamento e a solidão, conquanto indispensáveis, são cruéis; as contaminações e as mortes se sucedem em progressão geométrica. O presidente da República, apesar disso, se empenha num conflito de grêmio estudantil secundarista e ameaça afastar o seu auxiliar diretamente incumbido de enfrentar a pandemia. É o pandemônio institucional. É a irresponsabilidade alçando voo no momento em que deveria estar recolhida ao hangar. E voando para disseminar mais temor e mais medo.

Diz-se que foi contido, durante o ataque de loucura, por núcleo militar do governo. Transcrevo, a respeito, o professor José Seráfico de Carvalho: “Sem qualquer juízo de valor, vê-se o País entregue ao governo de uma junta militar. As intenções – percebe-se com clareza – buscam preencher o vácuo de poder. Insano ou incompetente apenas, seja lá qual for o conceito que a equipe militar que o acompanha tenha de Jair Bolsonaro, houve quem lhe dissesse basta! Melhor que qualquer brasileiro, os generais sabem com quem estão lidando. Se não conhecessem o dia-dia do Presidente, não o teriam excluído de seu ambiente profissional. E o veriam hoje ostentar as mesmas estrelas que para a grande maioria dos que as ostentam é motivo de orgulho.

Mais que a militância populista de Bolsonaro, ele teve que prestar contas de suposto atentado em que talvez perdessem a vida tantos quantos satisfariam seu apetite – trinta mil, disse-o ele, e não apenas uma vez”.

Inacreditável. Quando a Nação se vê aflita, buscando forças ao fito de impedir a implantação do caos, o homem que deveria estar à frente de seus compatriotas, faz a opção pelo trejeito infantil, pela birra estúpida, tudo, conforme se infere, pensando em uma questão política de médio prazo. “O presidente sou eu”. “Nenhum ministro é indemissível”. “Muitos morrerão; paciência”. Estas foram algumas das pérolas jogadas ao vento pelo fanfarrão de botina que ocupa o Planalto. Indicativas, parece-me de um espírito conturbado, naquela fase em que anseia proclamar autoridade, esquecido de que a autoridade se forja mais pela conduta do que por seu simples enunciado formal.

Era eu Secretário de Justiça. Em reunião do secretariado, o governador pede minha opinião sobre um assunto técnico-jurídico, que envolvia também interesses políticos. Dei-a, mesmo sabendo que o meu alvitre talvez não fosse o que melhor conviesse no momento. Fui herói por causa disso? Claro que não, nem nunca assim me senti. Senti-me apenas honesto e leal porque o auxiliar que escamoteia a verdade somente para ser agradável ao superior é, no mínimo, um covarde. Guardadas as devidas proporções, é isso uma síntese do imbróglio envolvendo Mandetta e Bolsonaro. Profissional da saúde, o ministro entendeu de não se curvar aos arreganhos presidenciais e se manteve firme na convicção de que o isolamento é o caminho menos ruim para o enfrentamento do monstro que nos ameaça. Essa postura não o faz merecedor de medalhas ou coroa de louros, mas implica em que se lhe deve respeito, coisa que o presidente faz tudo para perder. Se é que um dia o teve.

Quanta tristeza me invade sendo obrigado a assistir a esse espetáculo quase obsceno. Como se já não bastassem as restrições impostas pela quarentena! Não vejo os filhos, não beijo os netos, mas tenho que ver um megalômano destilar sua ignorância sobre minha gente, principalmente aquela que vive parindo nas estrebarias ou tendo as marquises como teto. É demais.

A condição de presidente da República não dá a Bolsonaro o direito de tripudiar sobre os destinos da Nação. Tivesse ele o mínimo de bom senso, haveria de, pelo menos, se mirar em outros chefes de Estado (até no Trump), os quais, também afligidos pelo mesmo problema, souberam dar ouvidos às proclamações da ciência. Acontece, porém, – e esse é o dilema – que se ele tivesse bom senso não seria Bolsonaro. Para ser o que é, e pelo que continua revelando, precisa de todo o estoque de insanidade que esteja ou venha a estar disponível. Em o consumindo, estará ele no auge de seu desempenho como bufão da corte.Tem “le physique du rôle”. Torço para que logo caia o pano no teatro onde se exibe essa tragicomédia.


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